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Jornal americano descreve facção brasileira como multinacional do crime com 40 mil membros em 30 países; publicação surge enquanto Trump avalia classificar o grupo como organização terrorista estrangeira
O The Wall Street Journal classificou o Primeiro Comando da Capital como uma organização criminosa com atuação global e estrutura comparável à de uma multinacional. Em reportagem publicada na segunda-feira (20), o jornal afirma que a facção brasileira se consolidou como uma das maiores organizações criminosas do mundo.
O texto alega que a facção estaria “reformulando os fluxos globais de cocaína da América do Sul para os portos mais movimentados da Europa e avançando em direção aos Estados Unidos”.

O “governo do mundo ilegal”
O WSJ afirma que o grupo já se porta como uma espécie de multinacional do tráfico: “Os membros do PCC mantêm um perfil discreto e empresarial, buscando fortuna, não fama. Novos integrantes aderem a um rígido código interno de conduta, e seus rituais de ingresso às vezes são realizados por videoconferência.” De acordo com a reportagem, o PCC virou uma “agência reguladora” e um “governo do mundo ilegal”, organizando o tráfico internacional, explorando ainda mineração de ouro, extração de madeira, tráfico de pessoas, pesca ilegal, caça predatória e escravização de comunidades indígenas.
Para especialistas ouvidos pelo veículo, o grupo funciona como uma espécie de “governo do mundo ilegal”, regulando atividades criminosas e organizando cadeias internacionais de tráfico.
A rota da cocaína e parceria com a máfia italiana
Um dos pilares dessa expansão é o controle logístico do tráfico. O Porto de Santos, o maior da América Latina, é o principal ponto de saída de cocaína para a Europa. A droga é inserida em contêineres de cargas legítimas, como soja, café ou suco de laranja, muitas vezes sem o conhecimento das empresas exportadoras. O PCC também diversificou suas rotas, utilizando portos no Nordeste e em Paranaguá, além de explorar caminhos que passam pela América Central e México antes de chegar aos Estados Unidos.
A diferença de preços sustenta o negócio: um quilo de cocaína comprado por até US$ 3 mil na América do Sul pode alcançar cerca de € 30 mil no mercado europeu. O grupo mantém uma parceria com a máfia italiana ‘Ndrangheta, em um modelo no qual a facção brasileira atua como fornecedora em larga escala e os europeus cuidam da distribuição.
Presença nos EUA e pressão de Trump
De acordo com autoridades norte-americanas citadas pelo jornal, pessoas ligadas ao PCC já foram identificadas em estados como Flórida, Nova York, Nova Jersey, Connecticut e Tennessee. Em Massachusetts, o gabinete do procurador federal anunciou no ano passado acusações contra 18 brasileiros que teriam ligação com a facção. A facção teria cerca de 40 mil integrantes, com atuação em aproximadamente 30 países e presença em todos os continentes, com exceção da Antártida.
A justificativa oficial do Departamento de Estado é o combate ao financiamento de organizações criminosas. Na prática, a classificação como grupo terrorista amplia instrumentos de sanção, permite bloqueio de ativos, restrições financeiras globais e abre margem para ações mais agressivas fora do território dos Estados Unidos.
Bolsonaros pressionam Washington — Lula resiste
Nos bastidores, os aliados mais próximos do ex-presidente Bolsonaro têm trabalhado há meses para convencer autoridades americanas de que os cartéis de drogas brasileiros representam uma ameaça direta à segurança e aos interesses dos Estados Unidos. A segurança tornou-se uma grande preocupação para os eleitores brasileiros, e a designação poderia beneficiar Flávio Bolsonaro, que concorre contra Lula nas eleições nacionais de outubro.
O governo Lula defende que os grupos atuam com foco em lucro, e não por motivação ideológica, critério central para caracterização de terrorismo na legislação brasileira. O tema também tem impacto político — parlamentares de direita já tentaram avançar com propostas para enquadrar facções como organizações terroristas no país, enquanto o governo vê risco de violação da soberania nacional.
O governo Lula iniciou uma ofensiva para reagir à possibilidade. A medida, em análise pela gestão Trump, preocupa o Palácio do Planalto e o Itamaraty por suas implicações jurídicas e de soberania. Há o receio de que o enquadramento das facções como terroristas seja usado para justificar operações militares ou outras ações unilaterais fora do território norte-americano.