Reuters aponta virada histórica: Geração Z abandona Lula e migra para a direita às vésperas das eleições de 2026

Lula tenta evitar perda de votos em estados estratégicos - 24/01/2026 -  Política - Folha

Parte da geração Z brasileira está deixando de apoiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e migrando para candidatos de direita nas eleições de 2026. É o que afirma uma reportagem publicada nesta semana pela agência de notícias Reuters. Segundo o texto, a mudança atinge eleitores de 16 a 34 anos, grupo que teve papel decisivo na vitória do petista em 2022.

O que é a Geração Z e por que ela importa eleitoralmente

A Geração Z é o conjunto de pessoas nascidas entre meados dos anos 1990 e o início dos anos 2010 — ou seja, quem hoje tem entre 16 e 28 anos aproximadamente. No Brasil eleitoral, o recorte de 16 a 34 anos é especialmente relevante porque inclui tanto os jovens que votam pela primeira vez quanto os que agora chegam aos seus trinta anos e já participaram de duas ou três eleições. Nas eleições de 2022, esse grupo foi apontado por analistas como um dos pilares da vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro, especialmente nas grandes cidades, onde o voto jovem e urbano pendurou para o PT. Se essa base está se movendo — como sugere a Reuters — o impacto eleitoral pode ser significativo.

Os três motivos da migração

A mudança decorre de três fatores principais: percepção de estagnação da economia; aumento da preocupação com a segurança pública; e sucessivos escândalos de corrupção.

Os três fatores não são independentes — eles se alimentam mutuamente. Um jovem que entrou no mercado de trabalho nos últimos anos encontrou um ambiente de emprego formal mais restrito do que o prometido, com salários médios abaixo do pico de 2014 mesmo corrigidos pela inflação. Ao mesmo tempo, acompanhou nos noticiários a escalada do crime organizado e os escândalos do INSS e do Banco Master — que atingiram tanto o campo governista quanto o oposicionista. Esse acúmulo de frustrações cria um eleitor descrente não necessariamente do Estado, mas dos partidos e das figuras que o têm governado.

A voz de um eleitor: “não consegui perceber a melhora que esperava”

O tradutor de videogames Ricardo de Lima Filho, de 34 anos, exemplifica essa mudança. Ele afirmou, à Reuters, que votou em candidatos de esquerda durante toda a vida, inclusive em Lula no segundo turno de 2022. Agora, pretende votar em um candidato de direita. “Vivi a maior parte da minha vida adulta sob governos do PT”, disse Ricardo. “Mas, com a economia estagnada, a segurança pública em declínio e escândalos de corrupção nas notícias, eu não consegui perceber a melhora que esperava.”

A frase de Ricardo resume com precisão o sentimento captado pelas pesquisas: não é uma conversão ideológica profunda, mas uma insatisfação prática. Ele não votou em Lula porque se tornou de direita — votou porque esperava resultados. Como os resultados não vieram na medida esperada, está disposto a tentar algo diferente.

O que dizem as pesquisas: a única faixa com desaprovação maior que aprovação

Uma pesquisa da Quaest, divulgada em junho, mostra que os brasileiros de 16 a 34 anos formam a única faixa etária em que a desaprovação do governo supera a aprovação.

Esse dado é especialmente revelador porque inverte o padrão histórico do eleitorado brasileiro. Tradicionalmente, os jovens tendem a se identificar mais com partidos progressistas e com governos que expandem direitos e serviços públicos. Quando a faixa mais jovem do eleitorado passa a reprovar o governo em maior proporção do que qualquer outra faixa etária, isso sinaliza uma ruptura com o padrão histórico que pode ter consequências duradouras para o campo progressista brasileiro.

O texto também cita dados da AtlasIntel. O instituto concluiu que os jovens brasileiros se identificam mais com posições de direita do que as gerações mais velhas. A tendência aparece de forma mais intensa entre os homens.

A concentração do movimento entre os homens jovens é um fenômeno observado em vários países simultaneamente. Nos Estados Unidos, Coreia do Sul e diversas nações europeias, pesquisas similares registram uma divisão crescente entre homens e mulheres jovens no espectro político — com os homens migrando para a direita e as mulheres permanecendo mais à esquerda.

O movimento não ocorre apenas no Brasil. Países como Estados Unidos, Coreia do Sul e várias nações europeias também registram uma migração de homens jovens para candidatos e partidos conservadores.

O paradoxo da educação: mais diplomas, menos renda

O diretor da Quaest, Felipe Nunes, afirma que o aumento da escolaridade não foi acompanhado por uma melhora equivalente na renda. O número de brasileiros com diploma universitário praticamente dobrou na última década. Mesmo assim, a renda média dos graduados permanece abaixo do nível registrado em 2014, quando corrigida pela inflação. “Esse jovem foi para a universidade, estudou, conquistou o diploma e, quando voltou ao mercado de trabalho, não viu esse resultado econômico de fato”, afirmou Nunes.

Essa combinação é politicamente explosiva: o jovem investiu anos de estudo e esforço numa promessa de ascensão social que o mercado de trabalho não cumpriu. Quando a expectativa não é atendida, a tendência é responsabilizar quem estava no poder — e Lula foi quem governou o Brasil durante boa parte da formação e da entrada no mercado de trabalho dessa geração.

A nova direita que tenta capturar esse eleitorado

O cenário abriu espaço para novos nomes da direita. O texto destaca o pré-candidato Renan Santos, do partido Missão, ligado ao Movimento Brasil Livre. Segundo a Reuters, ele conquistou apoio entre jovens insatisfeitos ao defender o combate à corrupção, o endurecimento da segurança pública e a redução do tamanho do Estado. Renan rejeita o rótulo de conservador para esse novo eleitorado. “Eles são antiesquerda”, diz Renan. “É diferente. A esquerda é o establishment.”

A frase de Renan é reveladora do reposicionamento discursivo da direita brasileira com esse público: em vez de se apresentar como conservadora — rótulo que muitos jovens rejeitem por associação com valores tradicionais ou religiosos —, ela se apresenta como antiestablishment. É uma linguagem que ressoa num eleitorado que cresceu na internet, que desconfia das instituições e que vê a política como um jogo dominado pelos mesmos atores de sempre, independentemente do partido no poder.

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