
Com a apuração apertada no segundo turno das eleições colombianas, o candidato Iván Cepeda, que recebeu apoio do atual presidente Gustavo Petro, optou por não admitir a derrota. A contagem preliminar mostrou o conservador Abelardo de la Espriella como vencedor, com 49,66% dos votos. Cepeda, de esquerda, aparece com 48,70%, uma diferença inferior a 300 mil votos.

O que Cepeda disse sobre o resultado
Conforme o site Infobae, Cepeda afirmou que ele e o partido reconhecem os resultados iniciais. Contudo, na sequência, o político esquerdista elencou ressalvas. “Também devemos informar que nosso grupo de observadores — dezenas de milhares de advogados — está contestando os resultados em 33 mil seções eleitorais em todo o país”, disse.
O candidato de esquerda pediu atenção redobrada da equipe de monitoramento durante o escrutínio. Ele sugeriu que só aceitará o resultado depois da revisão completa dos votos.
A postura de Cepeda é ambígua mas calculada: ao mesmo tempo em que declara reconhecer os resultados iniciais — evitando a acusação direta de fraude que seu aliado Petro havia feito no primeiro turno —, ele sinaliza que não dará o assunto por encerrado até que a recontagem oficial seja concluída. Contestar 33 mil seções eleitorais numa eleição que teve resultado com menos de 1 ponto percentual de diferença é juridicamente possível mas operacionalmente monumental — e pode arrastar o reconhecimento formal da vitória de Espriella por semanas.
O que é o escrutínio e como ele funciona
O processo de recontagem oficial, conhecido como escrutínio, está previsto para começar nesta segunda-feira (22), conforme determina a legislação colombiana. Esta etapa revê os votos sob a responsabilidade de comissões compostas de juízes, tabeliães e funcionários eleitorais. São eles que avaliam possíveis inconsistências e consideram as contestações apresentadas pelas candidaturas.
O escrutínio é, portanto, um mecanismo institucional previsto em lei — não uma exceção criada para acomodar a derrota de Cepeda. Toda eleição colombiana passa por esse processo após a contagem preliminar. A diferença, neste caso, é que o resultado tão apertado — menos de 1 ponto percentual — transforma o escrutínio de uma formalidade em um procedimento politicamente decisivo.
No primeiro turno, a diferença entre a pré-contagem e o resultado final foi inferior a 0,1 ponto percentual. Nas situações em que ocorrem divergências nos registros, as comissões podem solicitar uma nova conferência dos votos, o que pode levar a alterar levemente o resultado inicial.
Quem é Espriella e o que ele prometeu
Abelardo de la Espriella, natural de Bogotá e com 47 anos, é advogado e disputou seu primeiro cargo eletivo nesta eleição. Chamado de “El Tigre”, o novo nome da direita colombiana construiu uma campanha inspirada em líderes internacionais, como Donald Trump, dos Estados Unidos; Javier Milei, da Argentina; e Nayib Bukele, de El Salvador. Ele chegou a receber apoio público do presidente norte-americano antes do pleito.
Entre as propostas de De la Espriella estão mudanças estruturais no comando de instituições públicas e enfrentamento ao tráfico de drogas, à corrupção e à má gestão. Ele ainda tem a intenção de reduzir o tamanho do Estado em até 25%, cortar tributos, rever regras para o setor produtivo e desmantelar grupos armados e estruturas paralelas de poder.
Violência nas ruas após a divulgação do resultado
Além da contestação jurídica de Cepeda, a noite do domingo foi marcada por episódios de violência nas ruas colombianas. Manifestantes contrários à vitória de Espriella atearam fogo em locais públicos em diferentes cidades, num clima que evidencia a profundidade da polarização colombiana. As cenas recordam os episódios de instabilidade que precederam o impeachment de Pedro Castillo no Peru e o colapso do governo Castillo na Bolívia — países vizinhos que também passaram por processos eleitorais extremamente polarizados nos últimos anos.
O que a eleição representa para a América Latina
O resultado da Colômbia, se confirmado pelo escrutínio, representa mais uma virada à direita num continente que vem assistindo a uma reconfiguração política expressiva. Após a Argentina de Milei, o El Salvador de Bukele e o avanço da direita no Equador, a Colômbia de Espriella — caso a vitória seja confirmada — passaria a integrar um bloco conservador que abarca boa parte da América do Sul, ao mesmo tempo em que o Brasil se aproxima de eleições presidenciais em outubro, com o senador Flávio Bolsonaro disputando palmo a palmo com o presidente Lula num cenário de polarização semelhante.