
Um tribunal de Medellín proibiu o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, de usar canais oficiais do governo para divulgar conteúdo político durante a reta final da eleição presidencial. A decisão saiu na terça-feira (16 de junho), poucos dias antes do segundo turno, marcado para domingo, 21 de junho.

O que a medida cautelar determina
A medida cautelar determina que Petro não utilize recursos públicos ou plataformas institucionais. O objetivo é evitar o uso do cargo para favorecer ou prejudicar candidatos na disputa. Os magistrados concluíram que o presidente vinha desrespeitando uma determinação anterior do Conselho de Estado da Colômbia, órgão que já havia vetado manifestações eleitorais em favor ou contra partidos e candidatos.
Segundo a decisão, Petro fez repetidas referências ao processo eleitoral em discursos e entrevistas, além de usar as redes sociais para comentar a campanha presidencial. A proibição permanecerá em vigor até o encerramento da votação, às 16h do dia 21 de junho. Durante esse período, Petro também não poderá divulgar declarações sobre supostas fraudes eleitorais sem apresentar provas.
O que é o Conselho de Estado e por que essa restrição existe
O Conselho de Estado é o mais alto tribunal administrativo da Colômbia, responsável por julgar litígios envolvendo o poder público e por garantir que autoridades não usem recursos e canais oficiais do Estado para fins de campanha eleitoral — uma prática que, se permitida, daria ao candidato apoiado pelo governo uma vantagem estrutural ilegítima sobre os demais concorrentes, já que ele teria acesso privilegiado a estruturas de comunicação financiadas por todos os contribuintes, independentemente de sua orientação política. A restrição imposta a Petro segue esse princípio fundamental do direito eleitoral democrático: o presidente em exercício pode ter opiniões pessoais, mas não pode transformar a máquina pública num instrumento de campanha — nem mesmo informal, por meio de declarações em entrevistas oficiais ou publicações em contas institucionais.
Os ataques a Espriella que motivaram a decisão
Nas últimas semanas, Petro publicou mensagens críticas a Abelardo de La Espriella, líder das pesquisas de intenção de voto. O político é o principal adversário de Iván Cepeda, candidato apoiado pelo presidente. Ao justificar a medida, a 29ª Vara do Trabalho de Medellín afirmou que as manifestações do chefe de Estado poderiam comprometer a igualdade entre os concorrentes e influenciar o processo eleitoral. A ação foi apresentada pelo cidadão Juan Diego Ríos Rojas, que alegou desequilíbrio na disputa e possível impacto sobre a liberdade de escolha dos eleitores.
O episódio do “Heil Hitler”
O tribunal destacou ainda episódios recentes envolvendo Petro nas redes sociais. Em uma das publicações, o presidente respondeu com a expressão “Heil Hitler” a um artigo favorável à candidatura de De La Espriella, divulgado pelo advogado e diplomata Felipe Zuleta Lleras no jornal El Espectador.
A citação direta da saudação nazista por um presidente em exercício, em resposta a um artigo de opinião que defendia o candidato adversário, é um dos elementos mais graves citados pelo tribunal para fundamentar a restrição. Uma manifestação dessa natureza, partindo do chefe de Estado, ultrapassa o limite do debate político legítimo e foi interpretada pela Justiça colombiana como evidência do padrão de interferência que a medida cautelar busca conter.
Petro já havia contestado o primeiro turno
O presidente vinha questionando o processo eleitoral desde a divulgação dos resultados do primeiro turno, que mostraram seu aliado, Iván Cepeda, atrás de Abelardo de La Espriella na corrida presidencial. Petro chegou a alegar fraude e manipulação dos algoritmos de apuração no domingo da votação — acusações que o próprio Cepeda recuou de sustentar em menos de 24 horas, afirmando não ter encontrado evidências de irregularidades, e que a Registraduría Nacional rejeitou formalmente.
O que está em jogo no segundo turno
A decisão judicial chega no momento mais delicado da disputa: pesquisas recentes, como a da AtlasIntel, apontaram Espriella com vantagem de quase oito pontos percentuais sobre Cepeda às vésperas do segundo turno. Com a proibição judicial impedindo Petro de usar a máquina pública e os canais oficiais do governo para influenciar o resultado nos últimos dias de campanha, a Justiça colombiana tenta garantir que a votação de domingo ocorra em condições de igualdade entre os candidatos — um esforço institucional que ganha ainda mais relevância num país que, segundo a própria decisão do tribunal, já registrou um padrão recorrente de tentativas presidenciais de influenciar o pleito por canais que deveriam permanecer neutros. O resultado de domingo definirá não apenas o futuro político da Colômbia, mas também se o país se junta à onda de governos de direita que tem caracterizado a América Latina recente, ao lado da Argentina de Milei e, possivelmente, do Brasil pós-Bolsonaro nas eleições de outubro.