Recuperações judiciais atingem patamar mais alto desde 2016 e 30% das empresas que entram no processo terminam em falência

Onda de recuperações no Brasil passa por juros altos e questões estruturais  | CNN Brasil

O Brasil encerrou 2025 com 2,4 mil empresas em recuperação judicial, segundo dados da Serasa Experian. São quase mil novos processos iniciados no ano — o volume mais alto desde 2016, época em que o país saía de uma recessão tão severa que levou à queda de Dilma Rousseff.

O que é recuperação judicial e quando ela é necessária

A recuperação judicial é um mecanismo previsto na Lei 11.101/2005 — a Lei de Falências — que permite a empresas em situação de crise financeira grave solicitar ao Judiciário um período de proteção para reestruturar suas dívidas e tentar se recuperar economicamente, evitando a falência. Quando uma empresa entra em recuperação judicial, ela apresenta ao juiz um plano de reestruturação que precisa ser aprovado pelos credores — bancos, fornecedores, funcionários e outros que têm a receber. Durante o processo, a empresa fica protegida de execuções judiciais por 180 dias, período em que tenta renegociar seus débitos, vender ativos, reduzir custos e reorganizar as operações. É um instrumento que existe para preservar empregos, atividades produtivas e a função social das empresas — em tese. Na prática, o cenário atual mostra que o mecanismo está sendo acionado em números históricos e que sua eficácia está sendo questionada pelos dados.

Por que os números de 2025 assustam

Em 2021, foram pouco mais de 900 CNPJs em recuperação judicial. Já em 2024, o número rompeu a barreira das duas mil solicitações. O salto de pouco mais de 900 em 2021 para 2.400 em 2025 representa um crescimento de quase 167% em quatro anos — um ritmo de deterioração do ambiente de negócios que não pode ser explicado apenas por fatores cíclicos ou conjunturais.

O dado de 2025 coloca o Brasil num patamar comparável ao pior momento da crise de 2015-2016, quando a recessão devastou a economia brasileira, derrubou o governo Dilma Rousseff e levou milhares de empresas ao limite. Que o país tenha voltado a esse nível de quebradeira num período que o governo federal classifica como de crescimento econômico é um paradoxo que os analistas atribuem ao custo altíssimo do crédito, à carga tributária sufocante e ao endividamento acumulado pelas empresas nos anos de juros altos.

O dado mais perturbador: o mecanismo de salvamento está afundando junto

Segundo levantamentos da escola internacional de negócios StartSe, quase 30% das empresas que entraram em recuperação judicial no segundo trimestre de 2025 terminaram em falência. Esse índice ficava em torno de 10% a 20% em períodos anteriores. O mecanismo que existe para salvar empresas está submerso junto com os náufragos.

Esse dado é mais revelador do que o volume de pedidos. A recuperação judicial foi criada para ser um instrumento de segunda chance — uma forma de evitar que empresas viáveis, mas temporariamente descapitalizadas, fossem destruídas pela insolvência. Quando a taxa de conversão de recuperação em falência dobra — de 10-20% para 30% —, isso significa que o processo não está conseguindo salvar quem precisava ser salvo. As empresas chegam ao pedido de recuperação já em estado tão avançado de deterioração que nem o período de proteção judicial é suficiente para reverter a situação. Em outras palavras: muitas empresas estão recorrendo à recuperação judicial não como primeira linha de defesa, mas como último recurso antes da inevitável liquidação.

As causas estruturais da epidemia de quebras

O ambiente de negócios que levou a esse cenário é resultado de uma combinação de fatores que se acumularam ao longo dos últimos anos. A taxa Selic elevada encarece o crédito de forma proibitiva para empresas menores e médias, que dependem de capital de giro para manter suas operações. A carga tributária brasileira — que, conforme levantamento do IBPT divulgado nesta semana, consome quase 40% da renda dos brasileiros e equivale a 150 dias de trabalho no ano — corrói as margens de todas as empresas, especialmente as que operam em setores de baixa margem como varejo, alimentação e serviços. A inadimplência recorde — com mais de 81 milhões de brasileiros negativados, segundo dados citados pelo próprio senador Flávio Bolsonaro em sua carta a Marco Rubio — afeta diretamente as empresas que vendem a prazo para pessoas físicas. E a dívida pública que se aproxima de R$ 9 trilhões limita a capacidade do Estado de adotar políticas anticíclicas sem comprometer ainda mais o equilíbrio fiscal.

O resultado é um ecossistema empresarial sob pressão constante: custo do dinheiro alto, impostos pesados, consumidores endividados e sem capacidade de consumo, e um sistema de recuperação judicial que está sendo sobrecarregado além de sua capacidade de atender efetivamente as empresas que a ele recorrem. A epidemia de recuperações judiciais é, ao mesmo tempo, o sintoma mais visível e o indicador mais confiável da saúde real da economia brasileira — aquela que não aparece nos dados de PIB agregado, mas que se manifesta no dia a dia das empresas que tentam sobreviver num ambiente que cobra caro por cada centímetro de existência.

Comentários

No comments yet. Why don’t you start the discussion?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *