
Iván Cepeda, candidato governista à Presidência da Colômbia, recuou nesta segunda-feira (1º de junho) das acusações de irregularidades no primeiro turno das eleições, realizadas no domingo (31 de maio), e negou que sua equipe tenha encontrado evidências de grandes irregularidades no processo.
O recuo em 24 horas
A sequência dos eventos foi rápida e reveladora. Na noite de domingo, ainda com a apuração em andamento e o resultado contrariando todas as pesquisas, o candidato afirmou a apoiadores que havia 885 mil votos suspeitos e mencionou padrões de votação atípicos em partes do país, sem apresentar provas.
Na manhã seguinte, a postura havia mudado completamente. “Fizemos as verificações necessárias. E até agora, preciso dizer, porque sou uma pessoa séria e transparente, não encontramos neste momento fatos de uma dimensão ou profundidade que mereçam um pronunciamento sobre eventuais irregularidades”, disse Cepeda em declarações à imprensa.
“Até o momento, devo afirmar categoricamente que não encontramos nenhuma evidência ou indício de irregularidades flagrantes. Não há irregularidades de dimensões suficientes para falar de fraude”, afirmou o presidenciável a jornalistas em Bogotá, sem dar espaço para perguntas.
O resultado que ninguém previa
Apesar de pesquisas eleitorais posicionarem Cepeda como favorito no primeiro turno, o candidato da esquerda ficou atrás do ultradireitista Abelardo de la Espriella. O candidato conservador obteve 43,74% dos votos, contra os 40,9% recebidos pelo governista.
A sigla estava confiante de que ganharia no primeiro turno ao concorrer com um adversário tão controverso como Espriella, advogado famoso por ter defendido clientes como membros de grupos paramilitares e um suposto laranja do ditador Nicolás Maduro. Pesquisas de voto chegaram a colocar Cepeda com quase 45% das intenções de voto, mais de dez pontos percentuais acima do ultradireitista, que acabou superando o senador.
A surpresa explica, em parte, a reação inicial de contestação: nenhum analista ou pesquisador havia previsto uma margem de quase 3 pontos percentuais para Espriella. A combinação de derrota inesperada com acusações de fraude é um padrão recorrente na política latino-americana — mas, desta vez, o próprio candidato derrotado optou por recuar publicamente antes que a narrativa ganhasse vida própria.
Petro permanece na contestação, mas isolado
O recuo de Cepeda deixou o presidente Gustavo Petro numa posição política delicada: o chefe de Estado continua contestando o resultado, mas agora sem o respaldo do próprio candidato que apoiava. Petro publicou nas redes sociais que, como presidente, não aceita os resultados do pré-cômputo da firma privada dos irmãos Bautista, porque os algoritmos do software de contagem teriam sido alterados.
O órgão de controle eleitoral da Colômbia rejeitou as suspeitas levantadas por Petro sobre o primeiro turno. A Registraduría Nacional del Estado Civil — a autoridade eleitoral colombiana — não havia reconhecido qualquer irregularidade, e a contestação de Petro, sem o respaldo de Cepeda e rebatida pelo órgão eleitoral, ficou cada vez mais isolada ao longo do dia.
A resposta de Espriella e o pedido de vigilância internacional
O candidato vencedor do primeiro turno não ficou em silêncio diante das acusações. De la Espriella fez críticas diretas a Petro e alertou Cepeda a não insistir em questionamentos, afirmando que a população pode reagir caso haja tentativa de deslegitimar o resultado das urnas. De la Espriella ainda pediu que os Estados Unidos e outros países acompanhem de perto o processo eleitoral colombiano.
O que está em jogo até 21 de junho
O episódio — em que um candidato levanta acusações graves de fraude sem provas e recua em menos de 24 horas — tem consequências práticas para o segundo turno. O recuo de Cepeda preserva a legitimidade do processo e impede que a narrativa de fraude se consolide antes da votação decisiva de 21 de junho. Mas a própria sequência de eventos — acusação, repercussão internacional, pressão do órgão eleitoral e recuo acelerado — revela o grau de tensão política em que se encontra a Colômbia às vésperas de definir seu próximo presidente.
Apesar de enfrentar dificuldades ao longo do mandato como presidente, Petro vinha recuperando sua popularidade nos últimos dias e chegou a conseguir uma aprovação de 45,8% da população, embora a desaprovação de 50,4% comprove a polarização que marcou seu governo. Com Cepeda reconhecendo o resultado e Petro isolado na contestação, o segundo turno começa com Espriella em posição de vantagem — mas com a incógnita de como os eleitores dos candidatos eliminados no primeiro turno se posicionarão diante de uma disputa que promete ser a mais polarizada da história recente do país.