Governo identifica concentrações acima de 8.000 ppm de terras raras no Cinturão Ribeira em SP, PR e SC — e amplia pesquisas em 2026

SGB identifica potencial de terras raras em SP e PR

Joinville e Garuva estão entre os municípios catarinenses mapeados; descoberta coloca o Brasil no radar da transição energética global e pode reduzir dependência da China, que controla 60% da produção mundial; próxima etapa de campo ocorre ainda em 2026 com foco nas áreas de maior concentração


O Serviço Geológico do Brasil (SGB) identificou concentrações expressivas de terras raras em áreas de São Paulo, Paraná e Santa Catarina e vai ampliar, ainda neste ano, as pesquisas de campo nas regiões. Em entrevista à CNN, o diretor de Geologia e Recursos Minerais do SGB, Francisco Valdir Silveira, afirmou que os resultados obtidos na região reforçam o potencial já apontado por levantamentos anteriores da estatal. Segundo ele, em algumas amostras coletadas em campo nos três estados, os técnicos encontraram concentrações de terras raras acima de 8.000 partes por milhão.

Na prática, isso significa que, a cada 1 milhão de partes analisadas da amostra, mais de 8.000 correspondiam a elementos terras raras. O patamar é considerado expressivo para uma amostra de campo e ajuda a confirmar o potencial geológico da região. A medição é feita pelo indicador TREE, sigla usada para representar o teor total de elementos de terras raras presentes em uma amostra.


Os municípios mapeados — incluindo Joinville e Garuva em SC

O trabalho incluiu atividades de campo, com coleta de amostras de solo e rocha, além do reprocessamento e interpretação de dados geofísicos e geoquímicos. As áreas de campo abrangeram os municípios de Itupeva, Alumínio, Morungaba, Capão Bonito, Juquiá, Jacupiranga, Cajati, Itapirapuã Paulista e Cananéia, em São Paulo; Cerro Azul, Castro, Carambeí e Tijucas do Sul, no Paraná; e Joinville e Garuva, em Santa Catarina. As áreas foram selecionadas com base no Mapa de potencial de elementos terras raras (ETR), elaborado pela instituição.


O projeto e sua base no PAC

O levantamento faz parte do projeto “Avaliação do Potencial de Terras Raras no Brasil Etapa São Paulo e Paraná”, conduzido pelo SGB. O projeto está inserido na linha de atuação “Minerais Estratégicos para Transição Energética”, dentro da Ação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal.

Atualmente, o projeto desenvolve atividades nos estados de Goiás e Tocantins, Minas Gerais, Bahia, Paraná, São Paulo e Santa Catarina.


“Resultados bastante promissores” — a avaliação dos pesquisadores

O pesquisador do SGB, Guilherme Iolino Troncon Guerra, afirma que os primeiros resultados ampliam significativamente o interesse técnico sobre a região: “Os primeiros resultados são bastante promissores, com a identificação de concentrações bastante elevadas de ETR em diferentes pontos estudados.”

A coordenadora do Projeto Terras Raras do SGB, Lucy Takehara, explicou que a próxima etapa se concentrará nas áreas com resultados mais expressivos. “Esta primeira fase de amostragem foi um estudo regional. Agora, nas áreas onde identificamos teores mais elevados, faremos um detalhamento com amostragens mais sistemáticas para confirmar esses teores anômalos”, afirmou a pesquisadora.


A próxima fase: novas áreas ainda em 2026

A próxima etapa das pesquisas será realizada ainda em 2026 e contemplará novas áreas em Sete Barras, Tapiraí, Piedade e Natividade da Serra, em São Paulo. O objetivo do Serviço Geológico do Brasil é aprofundar o detalhamento dos mapas de favorabilidade mineral e disponibilizar novos produtos técnicos que auxiliem políticas públicas e decisões de investimento.


O que são terras raras e por que são estratégicas

As terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos — como neodímio, lantânio, cério e disprósio — essenciais para a fabricação de motores elétricos, turbinas eólicas, painéis solares, smartphones, sistemas de defesa e semicondutores. São considerados minerais críticos para a transição energética global porque não há substitutos viáveis para muitas de suas aplicações tecnológicas.

O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de terras raras segundo levantamento do SGB. Atualmente os seguintes estados têm potencial confirmado ou em estudo: Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Bahia, Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Pará, Rondônia, Roraima, Amazonas e Piauí.

Araxá (MG) é onde está a única reserva oficialmente reconhecida de terras raras do Brasil. Na região de Poços de Caldas (MG), há diversas empresas de mineração pesquisando para terras raras e já identificaram recursos de 950 milhões de toneladas com teor de 0,25% de TREO.


O contexto geopolítico: reduzir a dependência da China

A identificação de novos depósitos de terras raras no Sul e Sudeste do Brasil chega em um momento de alta tensão geopolítica global em torno desses minerais. A China controla cerca de 60% da produção mundial e mais de 85% do processamento — uma posição que os Estados Unidos e a União Europeia têm classificado como risco estratégico. Em 2026, em meio à guerra comercial entre Washington e Pequim, o controle sobre cadeias de suprimento de minerais críticos se tornou um dos principais temas da diplomacia internacional.

Para o Brasil, a confirmação de depósitos expressivos no Cinturão Ribeira — região que abrange partes do litoral de SP, PR e SC — representa uma oportunidade de se posicionar como fornecedor confiável de matéria-prima estratégica para as democracias ocidentais, em um momento em que o mundo busca alternativas à dependência da cadeia produtiva chinesa. Para Santa Catarina especificamente, a presença de concentrações relevantes em Joinville e Garuva — área que já abriga um polo industrial e naval em expansão — abre perspectivas promissoras de integração entre mineração, indústria e infraestrutura portuária.

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