SC enfrenta “tempestade perfeita” do agro: dependência do milho ameaça competitividade da proteína animal catarinense

Guerra no Irã e super El Niño podem criar tempestade perfeita para o agro -  Crusoé

No 4º Congresso Nacional do Milho, em Brasília, lideranças debateram a crise estrutural do campo; estado precisa de 8,5 milhões de toneladas do grão, mas produz apenas 2,5 milhões; Tereza Cristina cobra novo Plano Safra e fundo garantidor; embaixador da China reforça cooperação estratégica com o Brasil


A agricultura brasileira chega a um novo ciclo pressionada por uma combinação de fatores que vai muito além da porteira. Juros altos, endividamento, custos de produção elevados, gargalos logísticos e disputas geopolíticas formam o cenário que lideranças do setor passaram a chamar de “tempestade perfeita” — expressão usada pela senadora Tereza Cristina (PP-MS) para resumir o momento vivido pelo campo brasileiro.

Esses temas estiveram no centro do 4º Congresso Nacional do Milho, promovido pela Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), em Brasília, com a participação do vice-presidente Geraldo Alckmin, do ministro da Agricultura André de Paula, da senadora Tereza Cristina, do vice-presidente da Abramilho Enori Barbieri e do embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao.


A tempestade perfeita que o produtor enfrenta

Segundo Tereza Cristina, o produtor rural enfrenta uma combinação inédita de pressões: preços de commodities em baixa, insumos caros, dólar em queda, juros elevados, problemas no acesso a defensivos e dificuldades logísticas internacionais.

A ex-ministra da Agricultura defendeu uma reforma profunda no Plano Safra, argumentando que o formato atual já não é compatível com o tamanho da agricultura brasileira. Para ela, o setor precisa de uma política mais ampla de renegociação de dívidas, da criação de um fundo garantidor e de um seguro rural que cubra não apenas perdas climáticas, mas também riscos de preço e de renda.

“Os juros entre 18% e 22% ao ano tornam a contratação de crédito inviável para grande parte dos produtores”, afirmou. “Há dinheiro no mercado para emprestar, mas muitos agricultores não conseguem acessá-lo porque não têm garantias suficientes.”


Santa Catarina: potência em carnes, refém do milho

Para Santa Catarina, o debate ganhou contornos especialmente preocupantes. O vice-presidente da Abramilho, Enori Barbieri, que também tem forte ligação com o estado, expôs a contradição estrutural do agronegócio catarinense: o estado é uma potência nacional na produção de aves, suínos e alimentos industrializados, mas não produz o milho necessário para sustentar essa cadeia.

“Santa Catarina precisa de aproximadamente 8,5 milhões de toneladas de milho para abastecer a indústria da proteína animal, mas produziu cerca de 2,5 milhões de toneladas neste ano”, afirmou Barbieri. A diferença precisa ser buscada em outras regiões do Brasil e, em alguns casos, até fora do país.

A dependência tem raízes históricas. Enori lembrou que Santa Catarina já plantou cerca de 800 mil hectares de milho, mas hoje planta pouco mais de 300 mil hectares. Ao mesmo tempo, a cadeia de proteína animal cresceu. O resultado é uma pressão permanente: quando o milho fica mais caro, sobe o custo da ração. Quando a ração sobe, aumenta o custo das carnes. E quando o custo aumenta, a competitividade das agroindústrias catarinenses fica pressionada nos mercados interno e externo.

“O milho que ajudou a formar a agroindústria catarinense precisa voltar ao centro da estratégia”, disse Barbieri. “SC precisa ser mais agressiva na produção.”


Gargalos que travam a competitividade: armazenagem e ferrovia

Além da produção insuficiente, Santa Catarina enfrenta gargalos estruturais. Um deles é a armazenagem. Barbieri relatou que, de forma surpreendente, houve falta de armazém em Xanxerê — resultado do aumento rápido de produtividade impulsionado por novas tecnologias e da decisão de produtores de plantar mais milho.

Outro ponto crítico é a logística. Barbieri defendeu uma ligação ferroviária com o Centro-Oeste, principalmente com Mato Grosso do Sul, que abastece Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. Sem infraestrutura adequada, o milho chega mais caro — e quando o grão encarece, toda a cadeia de proteína animal é impactada.


Etanol de milho: nova frente de oportunidade

O etanol de milho também entrou no centro do debate. Barbieri citou a usina da CooperCampos, em Campos Novos, ainda em construção, com previsão de absorver cerca de 300 toneladas de milho por dia. Para ele, a indústria de etanol não deve ser vista como concorrente da proteína animal, mas como um impulso para aumentar a produção, gerar concorrência, criar alternativas de renda e ampliar o mercado.

Alckmin também defendeu o avanço do etanol de milho, destacando que a cadeia cresce fortemente, gera subprodutos para ração animal e traz ganhos econômicos, ambientais e sociais. O vice-presidente citou ainda a ampliação da mistura de etanol anidro na gasolina para 30% e a possibilidade de avanço para 32%.

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