Todo fim de ano, o Brasil revive um ritual que mais parece um contrassenso: a chamada “saidinha de Natal”. Amparada pela lei, a medida permite que milhares de presos do regime semiaberto deixem as unidades prisionais por alguns dias para visitar suas famílias. Em São Paulo, são cerca de 30 mil detentos liberados; em nível nacional, o número pode ultrapassar 50 mil.
Na teoria, trata-se de um mecanismo de ressocialização, uma oportunidade para o preso fortalecer vínculos familiares e se preparar para a reintegração social. Na prática, porém, o benefício se tornou um símbolo de insegurança. Ano após ano, relatos de presos que não retornam ou que cometem novos crimes durante o período reforçam a sensação de impunidade e fragilidade do sistema.
Natal de apreensão
Enquanto famílias honestas se reúnem para celebrar em paz, a sociedade é obrigada a conviver com o temor de que criminosos estejam circulando livremente. O Natal, que deveria ser sinônimo de tranquilidade, acaba marcado pela desconfiança. É um paradoxo cruel: o cidadão que cumpre suas obrigações sente-se menos protegido justamente na época em que mais deseja segurança.
Um benefício que desrespeita a sociedade
Não se trata de negar a importância da ressocialização, mas de reconhecer que a “saidinha” ignora a realidade brasileira. O país enfrenta altos índices de criminalidade e um sistema prisional falho, incapaz de garantir que os liberados cumpram as regras impostas. O resultado é previsível: parte dos detentos não retorna, e outros reincidem em delitos, ampliando o medo coletivo.
Hora de rever a lei
É urgente que o Congresso e o Judiciário revisem essa prática. A ressocialização não pode ser confundida com concessão de privilégios em massa, sem garantias mínimas de segurança. A sociedade não pode continuar pagando o preço de uma medida que, em vez de promover justiça, reforça a sensação de impunidade.
A “saidinha de Natal” é um benefício que já não dialoga com a realidade brasileira. Se o objetivo é preparar o preso para a vida em liberdade, é preciso encontrar alternativas mais responsáveis e seguras. Do contrário, continuaremos repetindo o mesmo erro: transformar o Natal em um período de apreensão, em vez de paz.