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O caso do médico cubano Yaser Herrera, de 37 anos, é um retrato contundente das contradições do programa Mais Médicos e das relações diplomáticas entre Brasil e Cuba. Atuando atualmente em São Paulo por força de uma decisão judicial, Herrera permanece no país sem revalidar o diploma e sem vínculo direto com o Ministério da Saúde, sustentado por uma liminar que também ampara outros colegas que decidiram permanecer após o fim da cooperação com Cuba.
Histórico no Brasil
Herrera chegou ao Brasil em 2017, como parte de um grupo de 500 médicos enviados por Cuba em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Trabalhou por quase dois anos em uma Unidade Básica de Saúde em São Gabriel, no Rio Grande do Sul, onde começou a perceber a discrepância salarial entre ele e os médicos brasileiros. Enquanto o contrato previa R$ 11,5 mil mensais, ele recebia apenas R$ 2,9 mil — o restante era retido pelo governo cubano.
Ajuda de custo e retenções
Além do salário reduzido, os médicos cubanos recebiam uma ajuda de custo muito inferior à prevista oficialmente. Em áreas remotas, o governo brasileiro destinava até R$ 25 mil para instalação, mas os cubanos recebiam apenas R$ 4 mil. “Nós agradecíamos achando que era um benefício do governo de Cuba, mas depois entendemos que eles nos roubavam”, declarou Herrera.
Conflitos e ações judiciais
Os atritos com o governo cubano levaram muitos médicos a entrarem com ações judiciais para reivindicar o salário integral. O governo brasileiro alegava que os médicos recebiam parte do salário em Cuba, além de bolsas complementares e auxílios de moradia e alimentação no Brasil. A Opas, por sua vez, afirmou que todos os recursos enviados para pagar as bolsas eram integralmente repassados a Cuba, já que os profissionais eram funcionários do Ministério da Saúde cubano.
Rompimento político e retorno clandestino
O vínculo entre Cuba e Brasil foi rompido em 2018, após o então presidente eleito Jair Bolsonaro questionar a formação dos médicos cubanos e as condições do acordo. Cuba ordenou a retirada imediata dos profissionais, sob ameaça de sanções para quem não retornasse. Herrera chegou a voltar à ilha, mas regressou ao Brasil semanas depois, onde passou quase dois anos trabalhando em estética dentro de um salão de beleza, até conseguir autorização judicial para atuar como médico novamente.
Esse caso levanta questões profundas sobre direitos trabalhistas, soberania profissional e exploração institucional, além de expor os limites éticos de acordos internacionais que envolvem mão de obra qualificada.