
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu encerrar os esforços para conquistar o apoio dos evangélicos, um dos segmentos mais influentes e organizados do eleitorado brasileiro. A decisão ocorre após a rejeição ao seu governo entre esse público atingir 55% entre junho e julho, segundo pesquisa DataFolha, e acende um alerta vermelho no núcleo político do Planalto para as eleições de 2026.
Historicamente alinhado a pautas conservadoras e ao bolsonarismo, o eleitorado evangélico representa mais de 35% da população brasileira e tem forte capacidade de mobilização. A desistência de Lula em buscar aproximação com esse grupo revela não apenas um desgaste político, mas também uma falta de estratégia diante de um segmento decisivo para qualquer disputa presidencial.

Tentativas frustradas e recuo estratégico
Nos últimos meses, o governo tentou articular aproximações pontuais, como a nomeação de figuras ligadas às igrejas para cargos estratégicos. A iniciativa, liderada por Alexandre Padilha e Eliziane Gama, buscava incluir o pastor Ronaldo Fonseca na coordenação nacional do segmento evangélico. O plano, porém, naufragou diante da resistência interna e da rejeição consolidada ao governo Lula.
A única ligação consistente do governo com o campo religioso permanece sendo o ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, cuja influência é considerada insuficiente para reverter a percepção negativa. A ausência de referências religiosas nos discursos recentes de Lula e sua recusa em participar de eventos com lideranças evangélicas indicam um afastamento definitivo — motivado, segundo aliados, pelo receio de vaias e constrangimentos públicos.
PT em alerta: risco de isolamento eleitoral
O distanciamento preocupa o Partido dos Trabalhadores, que vê o voto religioso como um fator decisivo para o próximo pleito. A postura atual de Lula, aos 79 anos e em seu terceiro mandato, contrasta com o líder combativo de mandatos anteriores, que buscava ampliar pontes com diferentes setores da sociedade. Agora, o presidente parece menos disposto a enfrentar os desafios políticos que exigem articulação intensa e diálogo com grupos divergentes.
Sem apoio direto do segmento evangélico, o governo aposta em ações indiretas — como programas sociais — para tentar mitigar o impacto da rejeição. Mas analistas alertam: essa estratégia pode ser insuficiente diante da força crescente das igrejas nas periferias urbanas e cidades do interior, onde o voto conservador tem se consolidado.
Caminho arriscado para 2026
A decisão de Lula de abandonar a disputa pelo voto evangélico pode custar caro ao PT. Em um cenário eleitoral cada vez mais fragmentado, ignorar um terço do eleitorado é um erro estratégico que pode comprometer a viabilidade de uma reeleição. O governo corre o risco de se isolar em nichos ideológicos, enquanto a oposição avança sobre territórios religiosos com discurso alinhado e presença constante.
Se o objetivo é unir o país, o abandono de setores inteiros da sociedade — especialmente os mais mobilizados — revela uma fragilidade política que o Planalto ainda não conseguiu superar.