
Declaração foi feita durante discurso em Florianópolis neste sábado (19/9); presidente cobrou reconhecimento dos produtores rurais pelo volume de investimentos, mas comentário ocorre em meio a queda na produção agroindustrial, juros elevados e tarifaço americano ao setor

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) causou reação negativa neste sábado (19/9), durante discurso em Florianópolis, ao afirmar que o agronegócio brasileiro “deveria se ajoelhar” para o governo federal em razão do volume de recursos disponibilizados ao setor nos últimos anos.
A declaração
Ao comentar a resistência política que enfrenta entre produtores rurais, Lula orientou publicamente o candidato ao governo de Santa Catarina pelo PSB, Gelson Merísio, a promover uma reunião com representantes do agronegócio catarinense para questionar diretamente a rejeição ao petista. “Eu acho que você deveria fazer uma reunião com o pessoal do agronegócio aqui, você e eles, sem nenhum papel na mão, e perguntar para eles: por que é que eles não gostam de nós? Por que é que eles não votam na gente? Qual é o problema contra nós? Acho que é uma questão de pele: é porque eu sou nordestino ou porque eu sou pobre?”, disse o presidente.
Na sequência, Lula foi além: “Porque, se dependesse de dinheiro do governo, eles deveriam não só votar, mas se ajoelhar para nós.”
O contexto que torna a fala sensível
A declaração chama atenção justamente porque contraria uma série de dados recentes sobre a relação do governo com o setor. A agroindústria brasileira fechou o primeiro semestre de 2026 em queda de 0,3%, segundo a FGV Agro, puxada por uma retração de 12,1% na fabricação de insumos agropecuários. O crédito no país segue extremamente caro mesmo após os últimos cortes da Selic — a taxa básica de juros permanece em 13,75% ao ano, uma das mais altas do mundo em termos reais, e a CNI classificou o ritmo de queda dos juros como “tímido” diante de um cenário de inadimplência recorde entre famílias e empresas.
Soma-se a isso o tarifaço imposto pelos Estados Unidos a parte das exportações brasileiras, que motivou a Federação da Agricultura e Pecuária de São Paulo (Faesp) a pedir explicitamente ao governo federal que priorizasse a negociação técnica em vez do confronto político — um alerta de que o setor já se sente prejudicado por decisões que fogem ao seu controle, mas cujo custo recai sobre o produtor.
Diante desse pano de fundo, a fala de Lula sugerindo que bastaria o volume de investimentos para justificar apoio político — e cobrando, em tom de campanha, uma espécie de gratidão (“se ajoelhar”) — tende a soar deslocada para uma classe que vem relatando aperto de crédito, custos elevados e insegurança externa, e não necessariamente falta de recursos.
Balanço apresentado por Lula
Durante o mesmo discurso, o presidente defendeu que seus governos foram responsáveis por abrir mercados internacionais para o agronegócio brasileiro. Ele citou que, somando apenas as quatro cadeias de proteína animal de Santa Catarina, teriam sido abertos “118 mercados” durante suas gestões — argumento que Lula usou para reforçar a tese de que o setor deveria reconhecer o apoio recebido, apesar da resistência eleitoral historicamente registrada entre produtores rurais.
Um padrão de fala que já gerou desgaste
Não é a primeira vez que declarações do presidente em tom de cobrança ou irritação com setores que não o apoiam eleitoralmente repercutem negativamente. O comentário se soma a um histórico de falas do petista sobre categorias e grupos que resistem à sua base eleitoral, e ocorre em meio a uma pesquisa Ipsos-Ipec divulgada dias antes mostrando desaprovação de 53% à forma como Lula governa o país — justamente em um contexto de acirramento da disputa presidencial contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), que vem aparecendo à frente ou tecnicamente empatado com o petista em diversos levantamentos recentes de segundo turno.