
Lobista negou à PF, em depoimento de maio, qualquer repasse financeiro ao filho do presidente e descreveu a relação como “amizade”; mensagens obtidas pela coluna de Andreza Matais mostram versão diferente entre 2023 e 2024

Investigada por suspeitas de tráfico de influência, a lobista Roberta Luchsinger apresentava o filho mais velho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, como seu sócio em conversas de WhatsApp com terceiros. A informação é da coluna de Andreza Matais, do Metrópoles, que teve acesso a oito trocas de mensagens de texto e áudio inéditas da lobista.
Contradição com o depoimento à PF
Em depoimento à Polícia Federal (PF), em maio deste ano, Roberta Luchsinger reduziu sua relação com Lulinha à condição de “amizade” e negou ter feito repasses financeiros a ele.
As mensagens obtidas pela coluna
A mensagem mais recente identificada é de 25 de junho de 2024, enviada a um contato salvo como “Adelaida Borg — Gerente Le Bristol”, referência a um hotel de luxo em Paris. Nela, Roberta escreve: “Que pena! Estava com meu sócio e a família. Filho do presidente Lula. Fizemos mta compra e adoraria ter lhe encontrado”.
Em 13 de maio de 2024, em conversa com um contato salvo como “Alexandre Rodrigues”, Roberta diz que tem ficado entre terça e quinta em Brasília, “com o meu sócio q é filho do pr” — sigla comumente usada na política para se referir ao presidente da República.
Em 3 de março de 2024, a lobista encaminha uma mensagem de Lulinha a um contato salvo como “Ana Carolina Alencar” e pede: “Mostra (a) Marcelo a mensagem do meu sócio, Fábio”.
Em áudio de 22 de fevereiro de 2024, enviado a um contato salvo como “Ana Carolina Melchert”, Roberta compartilha detalhes da própria agenda: “E o Fábio, meu sócio, já viajou para Barcelona. E aí eu tenho que correr com as coisas, né?”.
Em 28 de janeiro de 2024, em conversa com uma amiga, ela escreve: “Querida, estou indo dia 5 de fevereiro para Genebra com as filhas. Conosco irão Fábio (meu sócio) filho do presidente Lula com a esposa e filhos” — o parêntese consta na mensagem original.
Em áudio de 10 de janeiro de 2024, enviado a um contato salvo como “Rose Amorim”, Roberta conta uma história sobre Fernando Bittar e pergunta: “Lembra do Fernando, meu sócio na empresa que eu tenho com ele, com o Fábio, filho do presidente?”.
Em outubro de 2023, em conversa com um advogado de São Paulo, ela afirma apenas: “O fábio eh meu sócio. Eu ele e o Fernando Bittar.”
Já em 25 de junho de 2023, ao conversar com uma vendedora de roupas, Roberta diz: “Ela eh amiga da Renata minha melhor amiga q eh esposa do meu sócio Fábio q eh filho do presidente”.
Lula negou conhecer a lobista em entrevista à TV Globo
Ao participar de sabatina no Jornal Nacional, no dia 27 de agosto deste ano, o presidente Lula afirmou que “nunca viu” Roberta Luchsinger — declaração desmentida na mesma noite por adversários do petista, que divulgaram fotos dos dois juntos. “Eu não conheço essa moça. Nunca vi essa moça na minha vida. Nunca conversei com essa moça. Ela nunca esteve próxima de mim”, disse Lula na ocasião, chegando a chamar a lobista de “pilantra”: “O que uma pilantra pode fazer num telefone ou o que um cara qualquer pode fazer num telefone?”.
Os inquéritos em curso no STF
Atualmente, fatos relacionados a Lulinha e Roberta Luchsinger são investigados em três inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF). O principal deles, com as apurações mais avançadas, trata de suspeitas de que Lulinha, Roberta Luchsinger e Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, teriam praticado tráfico de influência no Ministério da Saúde para vender fármacos derivados de maconha, como o CBD. Além da relação com Roberta, Lulinha atuou em conjunto com o Careca do INSS na empresa de maconha medicinal Cannabis World — os dois chegaram a viajar juntos para Portugal e Espanha, país onde Lulinha vive desde meados do ano passado.
Um segundo inquérito trata de pagamentos que Roberta Luchsinger teria feito a pessoas do entorno do presidente, como o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Uma terceira apuração investiga possível tráfico de influência na Dataprev, empresa pública de processamento de dados.