O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participa nesta terça-feira (7 de julho) de uma audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR — o evento que antecede a decisão final do governo Trump sobre a aplicação ou não de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, prevista para 15 de julho. Flávio terá cinco minutos para discursar, tornando-se o único representante político brasileiro a participar pessoalmente do processo.
“O Lula já atrapalhou”
Em vídeo publicado nas redes sociais na véspera da audiência, Flávio rebateu críticas de que sua presença poderia prejudicar as negociações do governo brasileiro. “Eu estou aqui para defender os interesses do povo brasileiro, mesmo sem ser o presidente do Brasil, ainda. Vejo notícias dizendo que posso atrapalhar. Está de brincadeira! O Lula já atrapalhou e vai ser difícil reverter o estrago que ele causou. Não vou me omitir. Farei a minha parte para defender os interesses do povo brasileiro, sempre”, afirmou o senador.
Durante a declaração, Flávio responsabilizou diretamente o governo Lula pelo clima de tensão comercial entre os dois países. “Na minha opinião, o comportamento de Lula é deliberado para atrair as tarifas. Ele é o principal fator de risco para o Brasil ser tarifado.” Flávio afirmou ainda que, caso vença a eleição de outubro, pretende adotar uma postura diferente com os americanos: “A possível mudança de governo, a partir de 2027, vai ser um novo marco nas relações entre Brasil e Estados Unidos. Serei um presidente que vai se sentar na mesa para negociar de igual para igual, sem a necessidade de tarifas.”
O governo Lula enviou observadores — mas não falará
O governo brasileiro acompanhou a audiência por meio de observadores do Itamaraty, mas não inscreveu representantes para discursar. A diferença é significativa: enquanto Flávio usará os cinco minutos disponíveis para apresentar argumentos formais no processo que decidirá o destino das tarifas, o governo do país efetivamente atingido pela medida optou por uma postura passiva. A estratégia do Planalto é apostar no diálogo diplomático reservado entre chanceleres e representantes de comércio, sem legitimar o processo do USTR como fórum adequado para a discussão.
As oito acusações que o Brasil precisa responder
O documento do USTR que fundamenta a investigação lista oito categorias de práticas brasileiras consideradas “irrazoáveis” ou “injustas”:
A primeira é a censura digital: tribunais brasileiros emitiram ordens secretas determinando que empresas americanas de mídia social removessem conteúdos políticos e suspendessem perfis de usuários, inclusive nos EUA, proibindo as plataformas de revelar as ordens aos próprios afetados e impondo multas significativas pelo descumprimento — chegando ao fechamento completo de um site.
A segunda é o Pix: os EUA acusam o Brasil de prejudicar injustamente empresas americanas de pagamento eletrônico por meio de políticas que favorecem o sistema nacional concorrente.
A terceira são tarifas preferenciais assimétricas: o Brasil oferece tratamento tarifário mais baixo a produtos mexicanos e indianos por acordos bilaterais em setores nos quais os EUA são competitivos.
A quarta é o combate à corrupção insuficiente — com referência específica à decisão do ministro Dias Toffoli que anulou provas da Operação Lava Jato.
A quinta é a proteção inadequada à propriedade intelectual: o Brasil não aplica suficientemente suas leis contra falsificação, demora demais para examinar pedidos de patentes biofarmacêuticas e não implementa medidas antipirataria consistentes.
A sexta é o etanol: em 2017, o Brasil interrompeu o tratamento tarifário equilibrado que anteriormente aplicava ao etanol americano e desde então não ofereceu reciprocidade.
A sétima é o desmatamento ilegal persistente, apesar de o Brasil possuir um marco legal para combatê-lo.
O que está em jogo para o Brasil
A CNI — Confederação Nacional da Indústria — mapeou que 4,1 mil produtos exportados pelo Brasil podem ser atingidos pelas tarifas de 25%. O impacto potencial sobre o comércio bilateral é da ordem de bilhões de dólares anuais, afetando setores que vão do agronegócio à manufatura, passando por commodities, calçados, aço e produtos químicos.