
A Rússia reconheceu na quarta-feira (10 de junho) o Brasil como livre de febre aftosa sem vacinação. A medida foi formalizada durante viagem do Ministério da Agricultura ao país. Segundo o governo, a decisão “representa mais um avanço para a agenda sanitária e comercial do agronegócio brasileiro”. “A medida também abre espaço para avanços em novas categorias de produtos e possíveis incrementos nos fluxos comerciais”, afirmou o ministério.
O reconhecimento russo chegou numa semana especialmente favorável para o agronegócio brasileiro no campo sanitário internacional: a China também reconheceu o Brasil como livre da febre aftosa no início de junho. Ter os dois maiores importadores mundiais de proteína animal — China e Rússia — reconhecendo simultaneamente o status sanitário brasileiro é um resultado de enorme relevância estratégica para o setor.

O que é a febre aftosa e por que a classificação “livre sem vacinação” importa
A febre aftosa é uma doença viral altamente contagiosa que afeta animais com casco bipartido — bovinos, suínos, ovinos, caprinos e outros. O vírus provoca feridas dolorosas nas patas e na boca dos animais, comprometendo sua capacidade de se alimentar e caminhar, e pode causar quedas expressivas na produção de leite e de carne. Embora raramente fatal para os animais adultos, ela tem impacto econômico devastador porque é extremamente contagiosa e, por isso, países que a detectam são imediatamente impedidos de exportar seus produtos de origem animal para mercados internacionais.
A classificação internacional de status sanitário em relação à febre aftosa é feita pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) e divide os países em diferentes categorias. A distinção entre “livre com vacinação” e “livre sem vacinação” é crucial: o status “sem vacinação” é o mais elevado possível, e significa que o país erradicou completamente o vírus do seu território — sem precisar manter campanhas de vacinação ativa para controlar a doença. Países nessa categoria têm acesso privilegiado aos mercados mais exigentes do mundo, que restringem ou proíbem carnes provenientes de regiões onde a vacinação ainda é necessária.
O Brasil conquistou o status de livre de febre aftosa sem vacinação em todo o território nacional em 2022, após décadas de trabalho do sistema de defesa agropecuária brasileiro para eliminar progressivamente o vírus das diferentes regiões do país. A partir dessa conquista, o Ministério da Agricultura passou a negociar o reconhecimento bilateral dessa condição com diferentes países importadores — cada um deles com seus próprios processos de avaliação e acreditação.
O peso do mercado russo para o agronegócio brasileiro
O comércio bilateral entre Brasil e Rússia superou os US$ 10 bilhões em 2025. O Brasil exporta produtos como carnes, café e amendoim. Já a Rússia envia fertilizantes, trigo e insumos estratégicos para o agronegócio.
A relação comercial entre os dois países é de dependência mútua em áreas estratégicas. Do lado brasileiro, a Rússia é um dos maiores fornecedores de fertilizantes — insumo essencial para a produção agrícola nacional, especialmente o potássio, o nitrogênio e o fósforo, com os quais o Brasil tem baixa produção doméstica. Do lado russo, o Brasil é um fornecedor relevante de carnes, especialmente frango e suíno, que abastecem o mercado interno russo. O reconhecimento do status sanitário brasileiro pela Rússia pode ampliar significativamente o volume e a variedade de produtos que o Brasil pode exportar para o mercado russo — especialmente cortes de carne bovina que antes estavam vedados ou submetidos a restrições adicionais em razão de questões sanitárias.
A agenda em São Petersburgo e as discussões sobre fertilizantes
A agenda do ministério em território russo também envolveu a participação no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo e discussões sobre fertilizantes.
O Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo é o principal evento de relações econômicas e comerciais da Rússia — uma espécie de Davos russo —, que reúne lideranças empresariais e governamentais de dezenas de países para discutir investimentos, parcerias e acordos comerciais. A presença do Brasil no evento é diplomaticamente relevante especialmente num contexto em que o país tenta equilibrar suas relações com a Rússia — que mantém laços comerciais importantes com o Brasil — e as pressões ocidentais geradas pela guerra na Ucrânia.
As discussões sobre fertilizantes na agenda da visita são diretamente ligadas à segurança alimentar brasileira: qualquer interrupção no fornecimento russo de fertilizantes ao Brasil — seja por sanções, por conflitos logísticos ou por decisões políticas — tem impacto direto sobre o custo de produção do agronegócio nacional e, consequentemente, sobre a inflação de alimentos no país.
O reconhecimento duplo num momento de pressão externa sobre o agronegócio
Os reconhecimentos simultâneos de China e Rússia chegam numa semana em que o agronegócio brasileiro está sob pressão em outras frentes: a União Europeia mantém o veto à carne bovina por questões de antimicrobianos sem prazo para reabertura, e o governo Trump propôs tarifas de 25% sobre produtos brasileiros nos Estados Unidos. A abertura de espaço no mercado russo — o segundo maior importador de proteína animal do mundo — e a consolidação do reconhecimento chinês representam, nesse contexto, um contrapeso importante: o Brasil diversifica seus mercados e reduz a dependência dos mercados ocidentais que estão sob pressão. É a materialização da estratégia de política externa que o governo brasileiro tem defendido: não colocar todos os ovos na mesma cesta geopolítica, mantendo relações comerciais com diferentes blocos e preservando o acesso a mercados alternativos quando as principais rotas de exportação encontram obstáculos.