Pesca de arrasto da tainha é liberada 48 horas após encerramento — pressão da comunidade pesqueira e intervenção política reabrem safra no Norte de SC

O que muda em Santa Catarina com a nova portaria que estabelece as regras  da pesca da tainha para 2026 - Secretaria Executiva da Aquicultura e Pesca

A pesca de arrasto da tainha está novamente liberada para o Norte de Santa Catarina. A informação foi antecipada com exclusividade pelo ex-presidente do Sebrae, Décio Lima, após encontro com o presidente Lula, e confirmada pelo Ministério da Pesca em publicação nas redes sociais nesta terça-feira (9 de junho). A pesca artesanal da tainha havia sido encerrada pelo governo federal no último domingo após o atingimento de 90% da cota de captura.

O que aconteceu: do encerramento à reabertura em 48 horas

No domingo (7 de junho), o governo federal declarou o fim da safra de tainha por arrasto de praia em Santa Catarina. A justificativa era técnica e prevista em lei: quando a captura atinge 90% da cota estabelecida para a modalidade, a pesca deve ser encerrada para proteger o estoque da espécie. A cota de 1.332 toneladas para o arrasto de praia havia sido praticamente atingida em apenas 38 dias — o que os especialistas chamaram de “supersafra”, atribuída em parte à influência dos ciclones extratropicais que concentraram os cardumes próximos à costa neste inverno.

A medida, porém, provocou reação imediata e intensa da comunidade pesqueira artesanal de Santa Catarina. Pescadores e suas organizações representativas contestaram o encerramento, argumentando que a tainha ainda estava passando em abundância pelo litoral e que a interrupção prematura prejudicava as famílias que dependem exclusivamente da safra para complementar a renda do inverno. Em menos de 48 horas, a pressão surtiu efeito: o Ministério da Pesca recuou e anunciou a reabertura.

O que ainda não estava definido

O governo deve dizer em quais condições a atividade poderá ser retomada em documento a ser divulgado. Não se sabe se a liberação será total ou parcial por regiões e qual o limite vai ser permitido a partir de agora.

A incerteza sobre os termos da reabertura é um ponto crítico para os pescadores. A reabertura total — sem novos limites de cota — seria a opção mais favorável do ponto de vista da renda imediata, mas potencialmente arriscada para a sustentabilidade do estoque. Uma reabertura parcial, restrita a determinadas regiões ou com cotas adicionais menores, seria um meio-termo que tentaria conciliar a proteção ambiental com a pressão econômica das comunidades pesqueiras.

O que é o arrasto de praia e por que ele importa culturalmente

O arrasto de praia é mais do que uma técnica de pesca — é uma prática cultural com raízes profundas nas comunidades açorianas que colonizaram o litoral catarinense no século XVIII. Pescadores se reúnem nas praias com grandes redes, que são lançadas ao mar e arrastadas de volta à costa pelos próprios pescadores, formando semicírculos que capturam os cardumes de tainha que migram ao longo do litoral entre maio e julho. A cena do arrasto — com dezenas de pescadores puxando as redes em ritmo conjunto, enquanto os peixes saltam dentro do cerco — é uma das imagens mais icônicas do inverno catarinense, registrada em fotografias e vídeos que circulam amplamente nas redes sociais a cada safra.

Para as comunidades pesqueiras artesanais, a safra da tainha representa uma das poucas fontes de renda concentrada do ano — um período de trabalho intenso que complementa o orçamento de famílias cujos rendimentos são irregulares ao longo dos demais meses. O encerramento abrupto da safra, ainda com cardumes abundantes no litoral e com a temporada longe do fim natural, foi sentido como uma perda econômica direta e imediata.

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