
A receita das empresas de apostas online autorizadas dobrou no primeiro quadrimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano passado. Os dados da Receita Federal indicam que as chamadas bets faturaram R$ 12,2 bilhões de janeiro a abril. O avanço ocorreu mesmo com as restrições impostas pelo governo federal e pelo Judiciário contra palpites de beneficiários de programas sociais e de cidadãos endividados.

O que são bets e como funciona o modelo de negócio
Bets é o nome popular dado às casas de apostas esportivas online — plataformas digitais que permitem que qualquer pessoa com acesso à internet aposte dinheiro real em resultados de partidas de futebol, tênis, basquete e diversas outras modalidades esportivas. O modelo de negócio é matematicamente favorável ao apostador da mesma forma que um cassino: as probabilidades e as cotas são calculadas para garantir que, no agregado, o dinheiro das perdas sempre supere os prêmios pagos. A bet lucra com a diferença entre o que arrecada dos perdedores e o que paga aos vencedores — a chamada margem da casa. No Brasil, as apostas esportivas online foram regulamentadas pela Lei 14.790/2023, que estabeleceu regras para licenciamento, tributação e proteção ao apostador.
A arrecadação tributária: bets se aproximam do tabaco
O salto no faturamento elevou a arrecadação de tributos federais para R$ 4,5 bilhões no quadrimestre, contra R$ 2,2 bilhões registrados nos mesmos meses de 2025. O pagamento de impostos do setor de jogos virtuais encostou nos valores recolhidos por atividades tradicionais da economia nacional. Atualmente, as indústrias do tabaco e da agricultura pagam ao fisco cerca de R$ 1 bilhão por mês cada uma.
O dado é revelador da velocidade com que o setor cresceu: em menos de dois anos de regulamentação, as bets tornaram-se uma das maiores fontes de arrecadação tributária do país, equiparando-se a setores como tabaco e agricultura que levaram décadas para atingir esse patamar. Cada real que entra de tributos das bets, no entanto, corresponde a um volume muito maior que saiu dos bolsos dos apostadores — a maioria perdedores.
A Copa do Mundo como acelerador
A proximidade da Copa do Mundo deve acelerar os ganhos das empresas até o fim do ano. A consultoria H2 Gambling Capital projeta a entrada de R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões em novos depósitos de torcedores durante a competição mundial. No ano de 2025, o faturamento total da atividade fechou em R$ 36,9 bilhões no mercado brasileiro.
A Copa do Mundo é o evento esportivo de maior audiência global e historicamente o período de maior pico de apostas esportivas no mundo. Com o torneio ocorrendo no mesmo ano em que o Brasil já registrou crescimento de 100% no faturamento das bets apenas nos primeiros quatro meses, os analistas projetam que 2026 pode encerrar com um faturamento total que supere em muito os R$ 36,9 bilhões de 2025.
Quantas empresas operam e como o mercado está organizado
A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda já emitiu 85 licenças corporativas desde o início da regulamentação. O aval do governo federal colocou 187 sites de apostas legais no ar, sendo que cada permissão dá direito ao funcionamento de até três páginas na internet.
O número de sites — 187 — pode parecer grande, mas na prática o mercado é dominado por pouquíssimas marcas. A fatia majoritária do mercado nacional pertence a apenas dez marcas, que concentram 68,8% de todo o dinheiro movimentado. A empresa grega Betano lidera o ranking com 23% da receita registrada. As marcas estrangeiras Bet365, SportingBet e Superbet disputam as primeiras posições com a brasileira Esportes da Sorte.
O domínio de empresas estrangeiras no mercado brasileiro de apostas é um dado relevante do ponto de vista econômico: uma parcela expressiva dos lucros gerados pelos apostadores brasileiros flui para fora do país, na forma de dividendos e remessas às matrizes de grupos sediados na Grécia, no Reino Unido e em outros países. A presença de uma empresa brasileira — a Esportes da Sorte — entre as líderes é a exceção que confirma a regra.
As bets como maior patrocinadora do futebol nacional
As empresas de jogos eletrônicos também assumiram o posto de maiores patrocinadoras do futebol nacional. A Betano fechou um repasse de R$ 268,5 milhões com o Flamengo por um vínculo de três anos. O Corinthians mantém um contrato semelhante com a Esportes da Sorte, que repassa R$ 150 milhões ao clube paulista pelo mesmo período de vigência.
Os valores dos contratos de patrocínio revelam a lógica do negócio: as bets pagam centenas de milhões para associar suas marcas aos clubes mais populares do país porque o retorno em novos apostadores supera com folga o investimento em publicidade. Cada torcedor que assiste ao jogo e vê a logo da bet no uniforme do seu time é um potencial cliente — especialmente num país em que o futebol é a paixão mais democrática e transversal de todas as classes sociais.