Ferrovia de 212 km entre Mafra e São Francisco do Sul receberá R$ 608 milhões em modernização na nova concessão — leilão previsto para março de 2027

Ferrovia estratégica de Santa Catarina receberá R$ 608 milhões, terá  modernização histórica e pode transformar a logística entre Mafra e o Porto  de São Francisco do Sul - CPG Click Petróleo e Gás

A ferrovia entre Mafra e São Francisco do Sul deverá receber investimentos de R$ 608 milhões na futura concessão da Malha Sul. Os recursos serão aplicados na modernização da linha de 212 km de extensão. A ferrovia faz parte do lote Corredor Paraná-Santa Catarina, um dos três segmentos da divisão da malha.

O que é a Malha Sul e como ela está organizada

A Malha Sul é o conjunto de ferrovias que integra os estados do Sul do Brasil — Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul — além de um trecho em São Paulo. A atual concessão da Malha Sul vence em março de 2027, após 30 anos de duração, e deverá ser prorrogada por dois anos. O leilão será para o futuro contrato, também com 30 anos e possibilidade de prorrogação por mais 30. A malha tem 1,2 mil km no estado de Santa Catarina.

A malha está sendo dividida em três lotes para a nova concessão. O Corredor Paraná-Santa Catarina — que inclui a ferrovia entre Mafra e São Francisco do Sul — é um dos três segmentos, ao lado do Corredor Mercosul, com ramais em SC, e do Corredor Rio Grande.

O cronograma do leilão

As audiências públicas para apresentação da modelagem dos três lotes serão realizadas em julho — o evento em Santa Catarina está marcado para o dia 31 de julho, em Florianópolis. O cronograma do Ministério dos Transportes, revisado no final do mês passado, prevê lançamento do edital em dezembro e realização do leilão em março de 2027.

O processo é relevante porque a concessão atual, firmada há 30 anos, expira exatamente em março de 2027. Para evitar um vácuo na operação — o que poderia interromper o escoamento de grãos pelo porto —, o governo planeja prorrogar o contrato atual por dois anos enquanto a nova concessão é estruturada e o leilão é realizado.

O que será feito com os R$ 608 milhões: a modernização em detalhes

Os investimentos na linha entre Mafra e São Francisco do Sul são para a padronização dos trilhos, com substituição de todos os perfis abaixo do modelo T57 — um perfil com maior capacidade de suportar peso, que é utilizado em parte da ferrovia. Os dormentes de madeira devem ter substituição integral. A recomposição da camada superior do lastro, formada por brita, está prevista, com substituição de pelo menos 80% do volume. O nivelamento, alinhamento, regularização e estabilização da via integram a lista de obrigações da futura concessão. Também será preciso substituir os aparelhos de mudança de via para adequação aos novos trilhos.

Para quem não está familiarizado com a terminologia ferroviária: os dormentes são as peças transversais — geralmente de madeira ou concreto — sobre as quais os trilhos são fixados. O lastro é a camada de brita que sustenta os dormentes e drena a água. A troca de dormentes de madeira por novos e a recomposição do lastro são obras de manutenção estrutural que aumentam a capacidade de carga da ferrovia e reduzem o risco de acidentes. O perfil T57 dos trilhos — mais pesado e resistente — permite a passagem de composições com maior carga por eixo, o que é fundamental para o transporte eficiente de grãos em grandes volumes.

A importância estratégica da ferrovia para Santa Catarina

A ferrovia entre Mafra e São Francisco do Sul é a única da Malha Sul em operação em Santa Catarina. Com primeiro trecho inaugurado em 1906, entre Joinville e São Francisco, a linha férrea é usada para o transporte de grãos para exportação pelo Porto de São Francisco do Sul, principalmente soja. Há ainda uma operação de menor porte, para transporte de bobinas de aço entre São Francisco e Araucária, no Paraná. O transporte regular de passageiros foi encerrado em 1991.

O Porto de São Francisco do Sul é o principal terminal de exportação de grãos de Santa Catarina e um dos mais importantes do Sul do Brasil. Cerca de metade dos grãos exportados pelo porto chega por ferrovia — o que torna a modernização da linha uma questão diretamente ligada à competitividade do agronegócio catarinense e gaúcho nas exportações internacionais.

Os projetos futuros além da modernização

O processo de concessão ocorre num contexto mais amplo de expansão da malha ferroviária em Santa Catarina. Estudos do governo estadual apontam para uma futura ferrovia ligando São Francisco do Sul a Itajaí — dois dos maiores portos do estado — com custo estimado em R$ 1,5 bilhão e traçado de 145 km. Essa ferrovia litorânea, se construída, conectaria as duas principais saídas marítimas das exportações catarinenses por trilho, reduzindo drasticamente a dependência do transporte rodoviário e aliviando o congestionamento nas rodovias que convergem para os portos.

Há também a questão do contorno ferroviário de Joinville — obra paralisada desde 2011 que, se retomada, retiraria a passagem dos trens de carga da área urbana da segunda maior cidade do estado, eliminando conflitos com o trânsito e permitindo composições maiores e mais pesadas na ferrovia. A nova concessão e os R$ 608 milhões previstos são, portanto, apenas um capítulo de uma agenda ferroviária catarinense que, se executada integralmente, pode transformar a logística de escoamento da produção do Sul do Brasil nas próximas décadas.

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