Vorcaro pagou R$ 3,5 milhões a influenciadores para atacar o Banco Central em campanha

A imprensa e o próspero ramo dos influenciadores de aluguel

“Projeto DV” previa contratos de até R$ 8 milhões com ao menos 22 perfis nas redes para desacreditar o BC e ex-diretor Renato Gomes; dono da agência Mithi prestou depoimento à PF nesta terça-feira


O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, encomendou um plano de “marketing de guerrilha” para atacar a reputação do Banco Central do Brasil e seus dirigentes, segundo revelou o dono da agência Mithi, Thiago Miranda, em entrevista. Miranda afirmou que conheceu Vorcaro em julho de 2024, durante negociações envolvendo participação societária no portal Leo Dias. Segundo ele, após a primeira prisão do banqueiro, ofereceu ajuda para enfrentar uma “crise de reputação”. A proposta previa ações de “marketing de guerrilha” e um custo mensal de R$ 3,5 milhões.


O “Projeto DV”: uma cartilha contra o BC

Os ataques coordenados contra o Banco Central e o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução da autarquia, Renato Gomes, seguiram uma cartilha com instruções e direcionamentos elaborados pelo projeto de gestão de crise de Vorcaro. Os contratos com os influenciadores foram firmados pela agência Mithi. Somados, chegavam a R$ 8 milhões, mas a maior parte foi interrompida após a PF começar a investigar o bombardeio contra o BC, em janeiro.

Documentos obtidos pela reportagem mostram que os temas previstos para as campanhas incluíam tópicos como “Os Erros do BC”, “Renato Dias e o histórico do BC”, “Febraban contra um Banco?” e conteúdos relacionados ao banqueiro André Esteves, controlador do BTG Pactual.


Os pagamentos já realizados: R$ 3,5 milhões entre dezembro e janeiro

O “Projeto DV” desembolsou R$ 3,5 milhões entre dezembro e janeiro, com publicações de Luiz Bacci, GPS Brasília, Not Journal e Charles Costa criticando a gestão de Renato Gomes.

Dos R$ 8 milhões descritos nos contratos, Miranda fez pagamentos de R$ 3,5 milhões entre o fim de dezembro de 2025 e 5 de janeiro deste ano. As transferências ocorreram após ele ter recebido o mesmo valor da Super Empreendimentos, empresa ligada a Vorcaro.


Ao menos 22 perfis mapeados pela PF

As investigações mapearam ao menos 22 perfis nas redes sociais que foram contratados pela Agência Mithi para o “Projeto DV”, incluindo contas com mais de 20 milhões de seguidores. O inquérito, que trata das publicações pagas para fortalecer a narrativa do Master, foi instaurado em janeiro de 2026. A suspeita da PF é que tenha havido tentativa de manipulação do fluxo de informações sobre o caso nas redes sociais, a partir da divulgação de conteúdo contrário ao Banco Central e aos diretores no caso Master.

O publicitário Marcello Lopes, consta como um dos estrategistas do plano de ataques coordenados contra o BC, contratado por Vorcaro. O nome e a foto de Marcelão, como é conhecido em Brasília, aparecem na página em que são apresentados os três membros da “equipe de estrategistas” do plano, ao lado de Thiago Miranda e do publicitário Anderson Nunes, da Unltd Network.

A reportagem também obteve o comprovante de um pagamento via Pix feito por Miranda a Marcelão, no valor de R$ 650 mil em 13 de dezembro, momento em que o projeto DV estava em elaboração. A Unltd Network também recebeu repasse de Miranda dois dias depois, de R$ 400 mil.


Marcelão nega envolvimento

Marcello Lopes negou envolvimento na campanha contra o Banco Central e justificou o repasse de dinheiro como pagamento de serviços anteriores. Disse que recebeu a informação da inclusão de seu nome “com surpresa e indignação” e que não foi consultado sobre isso. “O que me recordo é que o Thiago Miranda comentou comigo sobre a possibilidade de eu entrar em um projeto grande que ele estaria fechando. Na ocasião, informei que não teria como participar porque eu viajaria para os EUA.”


A agência nega os ataques

O advogado Rafael Martins, que acompanhou o dono da agência Mithi em depoimento à Polícia Federal nesta terça-feira, 12, negou que o objetivo do contrato com influenciadores era “atacar autoridades ou órgãos do Estado”. Ele afirmou que o trabalho consistia na “reconstrução reputacional da imagem” de Daniel Vorcaro. “A atuação, nesse caso, se deu no sentido de uma recuperação de imagem. Em momento algum o senhor Thiago e a sua empresa tinham por objetivo atacar autoridades ou órgãos do Estado.”


O que disse o STF sobre o “Projeto DV”

Na decisão que determinou a terceira prisão de Vorcaro, em março deste ano, o ministro André Mendonça mencionou a atuação do “Projeto DV”, destacando que o objetivo da campanha era “atacar a reputação do Banco Central do Brasil”. Para a Polícia Federal, o grupo atuava de forma coordenada para influenciar a opinião pública contra agentes públicos envolvidos nas investigações sobre o Banco Master.

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