
Levantamentos da Ipsos, Genial/Quaest, Datafolha e Paraná Pesquisas convergem: violência e criminalidade são o maior problema do país para o eleitorado, mas o tema é ignorado pelos pré-candidatos à Presidência — fenômeno que pode custar votos a Lula e a Flávio Bolsonaro
A preocupação com a segurança pública voltou ao centro da agenda dos brasileiros às vésperas de um novo ciclo eleitoral. Levantamento divulgado pela Ipsos indica que 45% da população aponta crime e violência como o principal problema do país, percentual que supera com folga outros temas historicamente sensíveis, como corrupção e saúde.
O que dizem os diferentes levantamentos
Segundo pesquisa nacional do Instituto Paraná Pesquisas, realizada entre os dias 25 e 28 de janeiro com 2.080 eleitores em 160 municípios dos 26 estados e do Distrito Federal, 22,2% dos entrevistados apontam a segurança pública como o maior problema do país, seguida pela saúde pública, citada por 20,1%. Na sequência aparecem a inflação e o preço dos produtos (15,9%), a educação pública (13,8%) e a geração de emprego e renda (9,4%). O levantamento está registrado no TSE sob o número BR-08254/2026.
Já a pesquisa Genial/Quaest aponta que a violência é o principal problema do Brasil para 27% dos entrevistados. A corrupção aparece em segundo lugar, com 19% das menções, seguida por problemas sociais (16%) e saúde (14%).
O Instituto Datafolha, por sua vez, mostra que 21% dos entrevistados apontaram a saúde como o maior problema do Brasil — índice tecnicamente empatado com segurança pública, citada por 19%. Na sequência aparecem economia (11%), educação (9%) e corrupção (9%).
Uma tendência que se consolida há mais de um ano
Na série histórica da Genial/Quaest sobre o tema, a violência vem se mantendo no topo da lista das preocupações das pessoas desde o início de 2025 — o ápice ocorreu em novembro de 2025, quando os números chegaram a atingir quase 40%. O movimento coincide com a ascensão das facções criminosas e seu alastramento pelo território nacional.
O Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho estão longe de ser as únicas facções a aterrorizar o dia a dia dos cidadãos, principalmente nas periferias das grandes cidades. Inspiradas pelo “modelo de negócios” das duas principais, surgiram nas últimas décadas nada menos que 88 facções criminosas espalhadas por todos os estados, segundo levantamento sigiloso da Diretoria de Inteligência Penitenciária do Ministério da Justiça.
O Brasil acima da média global
No cenário internacional, o Brasil não está isolado nessa preocupação, mas aparece acima da média global. No conjunto de 30 países analisados pela Ipsos, crime e violência também lideram o ranking mundial, com 32% das menções. A diferença é que, no caso brasileiro, a distância entre segurança pública e os demais temas é mais acentuada.
Variações por perfil e por região
A percepção sobre os principais problemas varia segundo o perfil do entrevistado. Entre os homens, a segurança pública aparece de forma mais expressiva, com 25,1% das respostas. Por faixa etária, a segurança pública lidera entre eleitores de 16 a 24 anos (23,4%) e também entre os que têm 60 anos ou mais (23,9%). A saúde pública ganha relevância entre pessoas de 45 a 59 anos.
No Nordeste, Sudeste e Sul, a segurança pública aparece como líder ou divide o topo com a saúde. No Norte e Centro-Oeste, porém, a lógica muda: ali, a saúde pública é vista como o maior problema, superando a questão da segurança.
Pré-candidatos ignoram o tema — e pagam o preço
Nas últimas semanas, os principais pré-candidatos à Presidência da República falaram de assuntos os mais variados — menos do tema que se tornou a principal preocupação do eleitor brasileiro: violência e segurança pública.
O presidente Lula busca equilibrar a agenda com políticas sociais de prevenção e integração comunitária. O tema ganhou novo impulso depois do interesse dos Estados Unidos em classificar organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas.
A economia deve se manter como eixo central das campanhas eleitorais ao longo de 2026. O presidente Lula defenderá os resultados concretos alcançados, enquanto o senador Flávio Bolsonaro deve explorar o sentimento de estagnação percebido no dia a dia. A pesquisa Genial/Quaest mostrou que metade dos entrevistados acredita que a economia piorou no último ano, enquanto apenas 21% dos respondentes percebem alguma melhora no período.
O endividamento também preocupa
Os dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, mostram que o patamar de famílias endividadas no Brasil tem se mantido próximo dos 78% nos últimos meses. O que o eleitor sente no bolso é a materialização de uma taxa Selic que, apesar das flutuações, mantém o custo do crédito proibitivo para o consumo básico.