
Reajuste trimestral é o primeiro desde o início da guerra no Oriente Médio e reflete a disparada do petróleo Brent acima de US$ 100 o barril; distribuidoras alertam para alta acumulada superior a 50% até agosto e pedem renegociação com a estatal
Os preços da Petrobras nos contratos com as distribuidoras estaduais de gás canalizado tiveram um reajuste de 18%, na média, neste 1º de maio, de acordo com projeção da consultoria Wood Mackenzie. O ajuste contratual trimestral é o primeiro desde o início da guerra no Oriente Médio, no final de fevereiro, quando o conflito passou a pressionar os preços globais de energia.
Por que o gás ficou mais caro agora
Maio é a data do primeiro reajuste trimestral previsto nos contratos da estatal desde que a guerra no Oriente Médio eclodiu, alçando o preço do barril do petróleo a patamares acima de US$ 100 desde março. O Brent é o principal indexador nos contratos da Petrobras — agente dominante no mercado brasileiro, mas que já não é mais a única fornecedora.
O reajuste contratual de maio reflete parcialmente o início do conflito, já que leva em consideração os preços internacionais de março, mas também de janeiro e fevereiro, quando o Brent ainda orbitava na casa dos US$ 60. O aumento esperado poderia ser ainda maior, não fosse o início, este ano, da validade dos contratos indexados ao Henry Hub, o preço de referência do gás no mercado dos Estados Unidos. A Wood Mackenzie projeta um reajuste de 20% nos contratos baseados apenas no Brent.
O alerta para agosto: alta acumulada pode superar 50%
A expectativa é que o reajuste de maio seja apenas o primeiro. As distribuidoras alertam para uma alta acumulada superior a 50%, segundo a Abegás. Vale lembrar: as distribuidoras não têm aumento de margem com o reajuste do gás. Os valores são repassados para tarifas nos reajustes periódicos feitos caso a caso nos estados.
Um reajuste nessa proporção pode corroer o aumento de competitividade do gás registrado nos últimos anos. Desde dezembro de 2022, o preço da Petrobras para as distribuidoras acumula uma redução da ordem de 38%.
Distribuidoras pressionam por renegociação
Diante do impacto, as distribuidoras de gás canalizado, representadas pela Abegás, querem negociar com a estatal a redução da exposição do gás nacional aos indicadores internacionais — em especial o Brent. “Vamos pleitear, buscar junto à Petrobras uma diferenciação de contratos, para que eles não sejam impactados pela variação do Brent como está acontecendo”, afirmou o diretor-executivo da Abegás, Marcelo Mendonça.
As distribuidoras pedem que o gás natural não fique de fora das medidas de mitigação dos efeitos da guerra — o que inclui, na esfera do governo federal, a criação do programa de subvenção ao diesel e a sinalização pró-GLP.
Quem será mais impactado — e quem está mais protegido
O repasse do reajuste da Petrobras para o consumidor final vai variar de estado para estado, de acordo com o tipo de contrato em vigor, tributos e com as regulações estaduais que definem as margens e mecanismos de repasse dos custos com aquisição de gás. Algumas distribuidoras, como a Bahiagás, possuem um mix de suprimento mais diversificado e estão, portanto, menos expostas aos ajustes de preços da Petrobras. Outras, como a Naturgy, no Rio, dependem exclusivamente dos contratos com a estatal.
O peso estrutural da Petrobras no mercado
Segundo o Anuário Estatístico da ANP, em 2024, a Petrobras detinha cerca de 90% da capacidade nacional de processamento de gás natural. Os gasodutos que conectam os reservatórios do pré-sal às unidades de processamento são ativos de propriedade integral ou majoritária da Petrobras. Essa concentração cria um verdadeiro estrangulamento: produtores privados dependem integralmente de infraestruturas controladas pela Petrobras para levar sua produção ao mercado.
O impacto no bolso do consumidor
O gás de cozinha mais caro já preocupa consumidores no Brasil. A escalada da guerra no Oriente Médio passou a pressionar diretamente o mercado global de energia e, como consequência, elevou o custo do GLP, o tradicional botijão usado nas residências do país. O preço médio nacional ao consumidor gira em torno de R$ 110, embora varie conforme região, distribuidora e custos locais de revenda. No entanto, esse aparente alívio pode ser apenas temporário, já que o repasse ao consumidor nem sempre acontece imediatamente.
O aumento do gás de cozinha tem impacto muito maior do que parece à primeira vista. Como se trata de um item essencial no dia a dia, qualquer reajuste pesa com mais força justamente sobre as famílias de renda mais baixa, que destinam parte relevante do orçamento a despesas básicas.