
Última reunião sob comando de Jerome Powell termina sem surpresas, com taxa entre 3,5% e 3,75% ao ano; sucessor indicado por Trump teve nome aprovado em comitê do Senado no mesmo dia e deve assumir ainda em maio
Na terceira reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve em 2026, nesta quarta-feira, 29 de abril, a taxa de juros foi mantida inalterada pela autoridade monetária pela terceira vez consecutiva. Acompanhando as projeções da maioria dos analistas do mercado, a taxa básica de juros da economia norte-americana segue no patamar entre 3,5% e 3,75% ao ano. Nas duas reuniões anteriores do Fed, em janeiro e março, os juros também haviam sido mantidos nessa faixa.
A votação não foi unânime
A decisão do BC dos EUA não foi unânime. Foram oito votos a favor da manutenção do patamar atual dos juros — Jerome Powell, John Williams, Michael Barr, Michelle Bowman, Lisa Cook, Philip Jefferson, Anna Paulson e Christopher Waller — e quatro contrários — Stephen Miran, Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan.
O que diz o comunicado do Fed
Em seu comunicado oficial, o Fed afirmou que “ao considerar a extensão e o momento de ajustes adicionais à meta para a taxa de juros dos fundos federais, o comitê avaliará cuidadosamente os dados recebidos, a evolução das perspectivas e o equilíbrio de riscos”, reforçando que está “firmemente comprometido em apoiar o máximo emprego e em retornar a inflação à sua meta de 2%”.
O Fed alertou ainda que “os acontecimentos no Oriente Médio estão contribuindo para um alto nível de incerteza quanto às perspectivas econômicas” e que o comitê “está atento aos riscos para ambos os lados de seu duplo mandato”.
A inflação que justifica a cautela
Segundo dados do Departamento do Trabalho, a inflação nos EUA ficou em 3,3% em março, na base anual, ante 2,4% registrados em fevereiro. Na comparação mensal, o índice foi de 0,9%, ante 0,3% em fevereiro. Já o Índice de Preços de Gastos com Consumo (PCE), um dos indicadores monitorados com maior atenção pelo Fed, ficou em 2,8% em relação a fevereiro do ano passado. A meta de inflação nos EUA é de 2% ao ano.
A despedida de Jerome Powell
A reunião desta quarta-feira foi a última do Fed sob a presidência de Jerome Powell, desafeto de Donald Trump. Na semana passada, o Departamento de Justiça do governo dos EUA informou que a investigação criminal sobre Powell foi encerrada. Na prática, a medida abre caminho para a nomeação do sucessor de Powell no comando do Fed, Kevin Warsh, indicado por Trump e sabatinado pelo Senado no último dia 21. O mandato de Powell termina em maio.
O impasse em torno da investigação havia sido agravado após o senador Thom Tillis, do Partido Republicano da Carolina do Norte, ter condicionado a aprovação do nome de Warsh pelo Senado ao fim das apurações sobre Powell.
Warsh aprovado no comitê do Senado — e sua promessa de independência
Indicado por Trump ao Fed, Kevin Warsh foi sabatinado pelo Senado e defendeu uma nova postura da autoridade monetária. Na mesma quarta-feira, seu nome foi aprovado pelo Comitê Bancário do Senado e, agora, a votação ocorrerá no plenário da Casa.
Durante a sabatina, Warsh responsabilizou a gestão de Powell pela escalada da inflação no país após a pandemia de Covid-19. Para ele, a alta nos preços continua sendo “um grande problema” para a população e “é necessária uma mudança de regime na condução da política monetária pelo Fed”.
Questionado pelo senador John Neely Kennedy se seria um mero “fantoche” de Trump no Fed, Warsh foi enfático: “Absolutamente não. Atuarei de forma independente à frente do Federal Reserve.” O indicado afirmou ainda que Trump jamais lhe pediu que assumisse qualquer compromisso em relação à eventual queda dos juros.
Quem é Kevin Warsh
Kevin Warsh foi indicado para o Fed há 20 anos, em 2006, pelo então presidente George W. Bush. Antes de chegar à diretoria da autoridade monetária, foi assistente especial de Bush para política econômica e secretário-executivo do Conselho Econômico Nacional. Fez parte do Conselho de Governadores do Fed de 2006 a 2011 e acompanhou de perto a crise financeira de 2008 e o colapso de grandes bancos como o Lehman Brothers.
Nos últimos anos, a postura de Warsh mudou e ele passou a adotar um tom mais crítico ao Federal Reserve. Em linhas gerais, está alinhado a Trump na defesa de uma política monetária menos contracionista, com a intensificação do corte de juros. Em outubro do ano passado, em entrevista à Fox Business, defendeu que “juros mais baixos, combinados com o tipo de revolução tecnológica que as políticas do presidente permitiram, são a semente da nossa revolução de produtividade”.
A próxima reunião do Fed
O próximo encontro da autoridade monetária para definir a taxa de juros está marcado para os dias 16 e 17 de junho, já sem Jerome Powell no comando do BC dos EUA.
A manutenção dos juros por três reuniões consecutivas, em meio a uma inflação ainda acima da meta e a pressões políticas crescentes de Trump por cortes, encerra o ciclo Powell com a marca da cautela — e abre uma nova era no Fed com Warsh, cujos primeiros movimentos à frente da autoridade monetária mais poderosa do mundo serão acompanhados de perto por mercados, governos e investidores ao redor do planeta.