
Probabilidade do fenômeno subiu de 50% para 61% para o trimestre de maio a julho; Brasil surge como um dos países mais vulneráveis, com riscos opostos entre norte e sul do país; PIB da região andina pode cair até 1,7 ponto percentual
A América Latina enfrentaria impactos desiguais caso se concretizasse um fenômeno El Niño forte no segundo semestre de 2026, com riscos de inflação e de menor crescimento econômico devido ao impacto nas culturas e no setor energético. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos afirma que há 61% de probabilidade de que o fenômeno ocorra no trimestre de maio a julho, acima da previsão anterior, que era de 50%.
A Organização Meteorológica Mundial informou que, com as informações disponíveis até o momento pelos centros mundiais de previsão climática, ainda não é possível confirmar se o cenário atual evoluirá para um forte evento de El Niño. No entanto, a comunidade científica alertou para a importância de tomar medidas preventivas diante de “um risco crescente”.
“O mais responsável, por enquanto, é falar de um risco crescente, não de uma certeza”, disse Bárbara Tapia Cortés, meteorologista e coordenadora técnica de serviços da OMM.
Impacto econômico: PIB em queda e inflação em alta
Caso o fenômeno El Niño venha a ocorrer este ano com intensidade semelhante à de 2016, os principais efeitos previstos para a América Latina incluem desaceleração do crescimento econômico. “Nos países da região andina, o PIB poderia sofrer uma redução entre 0,6 e 1,7 pontos percentuais, conforme estimado em estudos anteriores”, segundo a analista Brigitte Castañeda, pesquisadora na área de energia e riscos climáticos da Universidade dos Andes.
Dependendo da intensidade do El Niño, também há previsão de impactos fiscais, devido à necessidade de destinar recursos para responder aos desastres que possam ocorrer, num contexto de menor arrecadação tributária. A isso se soma um possível aumento da inflação, impulsionado principalmente pelos preços dos alimentos, devido ao impacto em setores como a agricultura, a pecuária, a pesca, a energia e as infraestruturas.
O Brasil como epicentro da vulnerabilidade
“O Brasil surge como um dos países mais vulneráveis, devido à sua extensão e peso agrícola, com maior risco de seca, calor e irregularidade das chuvas no norte e em parte do nordeste, enquanto o sul estaria mais exposto a precipitações acima do normal, inundações, excesso de umidade e problemas logísticos”, afirma Yedda Monteiro, analista da consultoria agrícola Biond Agro.
Na Amazônia, no norte do Brasil e no Pantanal, um dos maiores riscos é a combinação de chuvas escassas, altas temperaturas, incêndios e baixos níveis dos rios. Em contrapartida, em regiões do sul do Brasil, do Uruguai, do Paraguai e do nordeste da Argentina, o El Niño costuma trazer chuvas acima da média, aumentando a probabilidade de enchentes e inundações.
Os impactos na agricultura
Estima-se que o setor agrícola da América Latina sofra aproximadamente 26% dos danos causados por desastres climáticos e até 82% em casos de secas. As culturas mais vulneráveis costumam ser o milho e o feijão na América Central, especialmente na agricultura familiar do Corredor Seco, bem como a soja em várias regiões da América do Sul, particularmente quando ocorrem períodos de seca ou chuvas excessivas em fases críticas do ciclo produtivo. O arroz, o café, o cacau, a cana-de-açúcar, as pastagens e a pecuária também podem ser afetados.
“O mais delicado é que o impacto não se limita ao rendimento agrícola”, afirma Tapia Cortés. Isso também pode se traduzir em custos de produção mais elevados, menor disponibilidade de água para irrigação, danos à infraestrutura rural, aumento de pragas e doenças, e pressão maior sobre a segurança alimentar e a renda das famílias rurais.
A crise energética que pode vir com o El Niño
Na América Latina, aproximadamente 50% da energia é proveniente de usinas hidrelétricas, o que torna a região muito vulnerável ao fenômeno. Os países que mais dependem da geração hidrelétrica são o Paraguai, com 99,8% do total; a Costa Rica, com 73,1%; e a Colômbia, com 70,8%, seguidos pelo Brasil e pelo Panamá.
“Quando um evento do El Niño reduz as chuvas e a vazão em bacias hidrográficas estratégicas, podem ocorrer vários efeitos em cadeia: menor geração hidrelétrica, pressão sobre os reservatórios, maior uso de geração térmica de apoio, aumento dos custos, mais emissões e maior vulnerabilidade do sistema energético”, disse Tapia Cortés.
O que fazer agora
Yedda Monteiro afirmou que a importância de antecipar esses eventos reside no fato de que muitas decisões críticas já foram tomadas quando os impactos se tornam evidentes. Ela recomenda que os governos comecem “imediatamente” a revisar os cenários climáticos, hídricos e energéticos, reforçando o monitoramento e os protocolos de resposta.
“Antecipar-se salva vidas, protege meios de subsistência e reduz custos. Não basta saber que um evento El Niño pode ocorrer; o decisivo é transformar esse conhecimento em ação antecipada”, afirmou a meteorologista da OMM.