
Iniciativa do Núcleo de Enfrentamento às Violências busca mapear crianças e adolescentes que perderam mães ou familiares em razão de crime de gênero; SC registrou 335 vítimas de feminicídio entre 2020 e 2024, e já contabiliza 21 mortes em 2026
O Ministério Público de Santa Catarina instaurou um procedimento administrativo com o objetivo de criar um banco de dados específico sobre os órfãos do feminicídio no estado. A iniciativa visa identificar, mapear e estruturar informações sobre crianças e adolescentes que perderam familiares em decorrência do assassinato de mulheres em razão de gênero, com o intuito de fundamentar a criação de políticas públicas na área.
A iniciativa é conduzida pelo Núcleo de Enfrentamento às Violências e Apoio às Vítimas (NEAVIT) e busca produzir dados qualificados que permitam identificar onde estão esses órfãos, compreender suas realidades e fortalecer ações de assistência e acompanhamento.
A realidade invisível dos filhos das vítimas
Segundo a promotora de Justiça Chimelly Louise de Resenes Marcon, a construção da base de dados permitirá compreender melhor a realidade e consolidar políticas de proteção no estado: “O feminicídio produz impactos que ultrapassam a violência letal contra a mulher. Quando uma mulher é vítima desse crime, seus filhos também são profundamente afetados, muitas vezes passando a enfrentar ruptura familiar, sofrimento emocional, insegurança social e vulnerabilidade econômica. Apesar disso, ainda há escassez de dados estruturados sobre esses órfãos.”
Os dados consolidados deverão subsidiar tanto a identificação de crianças e adolescentes quanto o aprimoramento dos fluxos de atendimento dessas vítimas indiretas, sempre em conformidade com as normas de proteção de dados pessoais e informações sensíveis.
O pano de fundo: 335 feminicídios em cinco anos
A produção do banco de dados sobre os órfãos do feminicídio considera como base o Mapa do Feminicídio em Santa Catarina, lançado em março pelo MPSC. O levantamento reúne, organiza e interpreta os feminicídios ocorridos entre 2020 e 2024, quando o estado registrou 335 vítimas do crime.
O Mapa do Feminicídio em Santa Catarina constitui um importante instrumento de diagnóstico institucional e de produção de conhecimento qualificado sobre a violência letal de gênero, permitindo a identificação de padrões, vulnerabilidades e impactos sociais decorrentes dos feminicídios.
O cenário em 2026
Entre janeiro e 23 de abril de 2026, 21 mulheres foram vítimas de feminicídio em Santa Catarina. O número acende o alerta para a continuidade da violência de gênero no estado e reforça a urgência de políticas públicas estruturadas — tanto para as vítimas diretas quanto para os filhos que ficam.
Se você ou alguém que conhece está em situação de violência doméstica, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) — serviço gratuito e disponível 24 horas.