Grupo criminoso usava senhas reais de servidores para invadir sistemas da Previdência em Itajaí (SC), reativar benefícios de falecidos e inserir laranjas como beneficiários; MPF avalia força-tarefa permanente para combater o esquema
O MPF, por meio do GAECO — Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado —, monitora uma sofisticada rede criminosa que atua em fraudes contra a Previdência Social em Itajaí, Santa Catarina. A investigação, iniciada pela Procuradoria da República, aponta que o grupo utilizava credenciais reais de servidores para invadir sistemas e desviar recursos públicos.
O esquema é descrito pelos investigadores como um dos mais elaborados já identificados no âmbito da Previdência Social no estado: criminosos essencialmente “ressuscitavam” mortos nos sistemas do INSS para saquear pensões que haviam sido devidamente encerradas.

Como o esquema funcionava
O grupo obtinha matrículas e senhas de servidores ativos do INSS para acessar o sistema. O alvo principal eram as pensões por morte que já haviam sido suspensas ou cessadas. Após reativar o benefício, os criminosos inseriam falsos dependentes ou curadores para assumir a titularidade dos pagamentos.
O principal ativo para os criminosos, nesse caso, não eram apenas as parcelas mensais, mas os montantes acumulados e em atraso. Quando um benefício antigo é reativado, o sistema pode gerar automaticamente o pagamento de todos os meses em que o valor ficou retido, resultando em cifras vultuosas em um único saque.
A engrenagem criminosa era, portanto, cirúrgica: entrar com credenciais roubadas de servidores, reativar benefícios de pessoas já falecidas, incluir laranjas como herdeiros e embolsar em um único golpe todos os valores que o sistema havia acumulado desde o encerramento do benefício — às vezes anos de pensão represada.
Organização criminosa com hierarquia definida
A estrutura hierarquizada e a divisão de tarefas para a prática dos ilícitos caracterizam o grupo como organização criminosa, segundo os investigadores.
Por se tratar de uma investigação policial em andamento, o caso é mantido sob sigilo. A estratégia dos órgãos de controle é evitar o vazamento de dados que possam comprometer a recuperação dos valores desviados ou a prisão dos líderes do grupo. A expectativa é que o levantamento do sigilo da ação penal ocorra somente após o oferecimento da denúncia formal à Justiça.
Força-tarefa permanente no horizonte
A movimentação recente dos órgãos de controle visa avaliar a viabilidade de uma atuação conjunta permanente entre o GAECO e o MPF em Itajaí. O objetivo é encorpar as provas antes que o caso chegue ao Judiciário.
Um problema sistêmico que persiste
As fraudes levaram o INSS a cancelar mais de 3.000 senhas de servidores que tinham acesso aos dados. Com isso, apenas seis pessoas passaram a conseguir acessar as informações. O alto número de servidores que tinham acesso, segundo o próprio INSS, pode explicar o vazamento de credenciais para grupos criminosos.
O caso de Itajaí mostra que, apesar das medidas emergenciais adotadas após o escândalo nacional, as brechas no sistema da Previdência Social continuam sendo exploradas por facções organizadas — que cada vez mais se especializam em crimes de colarinho branco, usando tecnologia e infiltração institucional para roubar de quem menos pode se defender: aposentados e pensionistas brasileiros.